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Informativo GEA

Plantas de cobertura na segunda safra
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​Introdução

           O uso de plantas de cobertura é uma prática vantajosa que agrega para o sistema de cultivo como um todo, desde o controle de plantas daninhas, à melhorias físicas e químicas do solo, como aumento da estrutura e ciclagem de nutrientes, respectivamente. Nesse sentido, é importante mencionar a proteção do solo com o uso dessas plantas, principalmente durante a entressafra das culturas. (CHERUBIN, 2022).            Entretanto, em ambientes de produção quais a disponibilidade hídrica é relativamente baixa, a adoção de plantas de cobertura tem sido utilizada na segunda safra, ou, comumente chamada de “safrinha”, em virtude também dos altos índices de radiação solar, principalmente no cerrado brasileiro, que se entrarem em contato direto com o solo, podem trazer inúmeros prejuízos à microfauna e desenvolvimento vegetativo (CHERUBIN, 2022).

 

Figura 1: Benefícios ao funcionamento do solo fornecidos pela utilização de plantas de cobertura.

 

 

 

 

 

​​

Fonte: Bruna Emanuele Schiebelbein.

           

       Ademais, as plantas de cobertura são essenciais para preservação dos solos contra erosões, ocasionadas pelo impacto das chuvas, auxiliando, assim, contra a desagregação do perfil do solo, bem como servem como uma estratégia de manejo de plantas daninhas, pois aumentam a competição por nutrientes, água e luz, ou também produzindo efeitos alelopáticos, que reduzem a emergências de plantas invasoras. Nesse sentido, as raízes dessas plantas contribuem para estruturação do solo, fomentando o surgimento de bioporos que contribuem para retenção de água nos solos.

            Diante disso, existem as plantas de cobertura leguminosas, as quais contribuem com a fixação de nitrogênio na cultura, mediante uma relação simbiótica com microrganismos do meio e também, existem as plantas de cobertura não leguminosas, que auxiliam a redução da lixiviação do nitrato quando incorporam nitrogênio em sua biomassa, assim essa maior disponibilidade de biomassa no sistema poderá contribuir para os teores de matéria orgânica no solo, bem como na ciclagem de nutrientes e com uma maior retenção de carbono nos solos, devido sua maior capacidade de fixar CO2 (AMADO et al, 2001).

            Outrossim, a quantidade e a qualidade da palha sobre a superfície do solo dependem do sistema de rotação adotado e, na maioria das vezes, do tipo de planta de cobertura escolhida e o manejo realizado. Logo, inicialmente, se deve escolher espécies com maior potencial para as condições edafoclimáticas do local, analisando-se portanto, a rapidez de seu desenvolvimento inicial e suas produções de biomassa.

 

Plantas de cobertura na segunda safra

           Desse modo, como anteriormente exposto, para a escolha ideal da espécie de cobertura que será implantada no sistema de segunda safra, deve-se atentar certos critérios de adaptabilidade da cultura à região, bem como, analisar suscetibilidade à doenças e pragas e o histórico da área. Bem como, é essencial compreender o posicionamento de certas espécies de plantas de cobertura visando uma estratégia de melhor adequação aos desafios climáticos regionais, principalmente, o regime hídrico, dessa forma, se faz necessário adequar as espécies conforme a “janela de plantio” e suas exigências hídricas.

            Nesse sentido, um exemplo de posicionamento de plantas de cobertura seria entre o girassol que apresenta uma maior resistência à seca comparado ao milho, com janela se estendendo até 15 de março, entretanto em comparação com o milheto que apresenta menor exigência hídrica e pode ser posicionado mais tardiamente, até meados de abril.

       Assim, as plantas de cobertura podem ser divididas por plantas de primavera/verão e outono/inverno, sendo que dentre as plantas de primavera/verão algumas merecem um maior destaque.

           As “braquiárias” são capins do gênero Urochloa, pertencentes à família Poaceae, são gramíneas originárias da África Equatorial e muito utilizadas devido sua alta capacidade de produção de biomassa.               Assim, a introdução de gramíneas forrageiras visando à diversificação e intensificação de sistemas de culturas anuais tem se mostrado uma prática promissora para ganhos econômicos e de sustentabilidade. A presença de braquiárias modifica os fluxos de nutrientes em compartimentos dos sistema solo-palhada, incrementando o conteúdo nos restos culturais que servirão como fonte para os cultivos seguintes, ao passo que contribui para prevenir perdas no sistema. De acordo com Balbinot Junior (2023), cerca de 70% do aumento de produtividade da soja em relação ao pousio no outono/inverno, foi decorrente das raízes de braquiária cultivadas na entressafra e 30% foi decorrente da palhada dessas espécies. Além de todas essas vantagens, as braquiárias também funcionam como uma estratégia para o manejo de doenças, com destaque para o mofo-branco, já que a cobertura com essas plantas desenvolvem um ambiente favorável para a germinação dos escleródios do fungo, que por não serem hospedeiros das braquiárias tendem a morrer por não conseguirem colonizar a espécie. Diante disso, o trabalho a seguir verificou apenas 2,0 apotécios/m2 no florescimento da soja contra 18,15 apotécios/m2 na ausência da cobertura vegetal.

 

Tabela 1: Porcentagem de escleródios mortos, parasitados por Trichoderma spp. e por outros fungos, em solo coberto ou não com Urochloa ruziziensis, com ou sem a aplicação de Trichoderma harzianum “1301” em Jataí-GO, 2006.

 

 

 

Fonte: Embrapa 2006.

 

          Dentre as espécies se destacam a Urochloa brizantha que cresce na forma de touceiras eretas, com colmos de densa pilosidade, além de um sistema radicular mais agressivo. Urochloa ruziziensis forma touceiras semieretas, apresenta um rápido estabelecimento inicial, em contrapartida de um sistema radicular menos vigoroso, sendo uma das espécies mais utilizadas no sistema de plantio direto em consórcios com outras culturas, como milho e café. Por fim, a Urochloa decumbens tem hábito de crescimento decumbente e apresenta rizomas na forma de pequenos nódulos, além de emitir grande quantidade de estolões (CHERUBIN, 2022).

Figura 2: Braquiária (Urochloa spp).

 

 

 

 

 

 

Fonte: Revista Cultivar.

 

            A crotalária segue sendo outra planta de cobertura de destaque, sendo as principais espécies a C. spectabilis, a C. juncea e a C. ochroleuca. Nesse sentido, existem certas especificidades de cada uma das espécies sendo a C. spectabilis amplamente difundida pela sua eficiência na redução da população de nematóides, além disso, também produz elevada quantidade de massa verde e por ser uma Fabaceae também contribuí com sua fixação biológica de nitrogênio (CHERUBIN, 2022). Em relação ao controle de nematoides, característica de alto destaque das espécies de crotalárias, já que as essas plantas não são apenas uma hospedeira pobre ou não hospedeira de muitos nematoides parasitas de plantas, elas têm a capacidade de produzir compostos alelopáticos que impedem, por exemplo a movimentação dos nematoides, atuando, dessa forma, como plantas armadilhas, fazendo com que os nematoides não consigam completar seu ciclo até a vida adulta.

         A espécie acima citada, apresenta um maior destaque na eficiência do manejo de nematoides como um todo, porém se faz imprescindível ressaltar sua eficiência ao nematoide das galhas (Meloidogyne incognita), ao nematoide do cisto (Heterodera glycines), bem como ao Pratylenchus brachyurus com fator de reprodução igual à zero para esse nematoide altamente problemático na cultura da soja.

        Dessa forma, o experimento a seguir comprova a maior resistência das diferentes espécies de crotalárias a incidências de nematoides, sendo o Meloidogyne javanica o retratado no estudo.

 

Tabela 2: Massa de raiz, J2 por grama de raíz, ovos por grama de raiz e fator de reprodução no terceiro ensaio de diferentes espécies de crotalária aos 60 dias da inoculação com Meloidogyne javanica, Dourados, MS, 2017.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: PONTIM, 2017.

 

Figura 3: Crotalária spectabilis.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Brseeds.

 

           A C. juncea é comumente destinada à adubação verde, pois se destaca no potencial produtivo de biomassa em um curto período de tempo, garantindo, assim, um fornecimento eficiente de nitrogênio ao solo. Em relação à controle de nematoides, a C. juncea se destaca principalmente em sua maior eficiência, comparada às outras espécies no controle do nematoide do cisto (Heterodera glycines) e ao Meloidogyne javanica e Meloidogyne incognita.

 

Figura 4: Crotalária juncea.

 

 

 

Fonte: Wikipédia.

 

           Portanto, a C. ochroleuca é mais conhecida por sua rusticidade, tolerância ao déficit hídrico e pelo rápido e vigoroso desenvolvimento de suas raízes, além de apresentar tolerância aos nematoides Meloydogine incognita, Rotylenchulus reniformis e Pratylenchus brachyurus (CHERUBIN, 2022).

 

Figura 5: Crotalária ochroleuca.

 

 

 

 

 

 

Fonte: Wikipédia.

 

           Ademais, deve-se mencionar a interação das diferentes espécies de crotalárias com a incidência de mofo-branco, o experimento a seguir analisa essa incidência nas espécies C. ochroleuca, C.spectabilis e C. juncea, semeadas em duas épocas de entressafra após o cultivo de soja (segunda quinzena de fevereiro e segunda quinzena de março). Como resultados foi analisado que não houve incidência de mofo-branco em C.juncea, mas houve em C. spectabilis com maior incidência e em C. ochroleuca, entretanto não houve incidência da doença na soja cultivada em sucessão às espécies de crotalárias nas duas safras avaliadas.

 

Figura 6: Incidência de mofo-branco em três espécies de crotalárias em Dourados, MS. Cada ponto representa a percentagem de plantas doentes em um metro linear.

           Diante disso, o milheto (Pennisetum glaucum), representa outra planta de cobertura que recebe grande destaque, devido sua principal característica ser uma baixa exigência hídrica, assim, devido a isso, há uma crescente demanda pela cultura nas lavouras do Cerrado graças à sua rusticidade, alta capacidade de produção de massa seca e estruturação do solo.

 

Figura 7: Milheto (Pennisetum glaucum).

 

 

 

 

Fonte: Blog da Aegro.

 

       Desse modo, as plantas de cobertura de outono/inverno que merecem destaque são, primeiramente, as aveias, sendo a aveia-branca (Avena sativa) e a aveia-preta (Avena strigosa) excelentes alternativas para o cultivo de inverno em sistemas de segunda safra, principalmente em regiões com o inverno mais ameno, a planta conta com um sistema radicular fibroso e fasciculado, com destaque para uma resistência à seca, tolerância ao frio e geadas, resistência ao pisoteio animal e boa produção de biomassa, já a aveia-preta normalmente utilizada na entressafra, devido seu alto potencial de produção de biomassa, baixo custo de plantio e rapidez de cobertura do solo (CHERUBIN, 2022). 

             Por fim, o nabo forrageiro (Raphanus sativus) é uma espécie amplamente utilizado para adubação verde e rotação e sucessão de culturas , como soja, milho e algodão, além de apresentar um sistema radicular agressivo do tipo pivotante, capaz de explorar solos mais compactados em grandes profundidades, bem como promove cobertura do solo de 70% em até 60 dias e, suas características alelopáticas inibem o desenvolvimento de outras plantas daninhas, assim, portanto, também se destaque sua alta capacidade de ciclagem de nutrientes, principalmente o fósforo e nitrogênio. 

           Ademais, o nabo-forrageiro se destaca pela sua capacidade de descompactação do solo, assim, Lopes (2017), estabeleceu a cultura em questão em casa de vegetação com o intuito de avaliar o desenvolvimento das raizes e capacidade de descompactação e os resultados obtidos demonstraram diminuição da densidade do solo e ocorreu o desenvolvimento das raízes na zona compactada do solo, sem alteração de massa verde e secas das plantas, demonstrando a capacidade dessa planta em penetrar camadas compactadas nos solos de lavoura. Segundo Nicoloso et al. (2008), o uso do nabo forrageiro, ou o consórcio deste com outras culturas apresenta relativa vantagem para servir de escarificador do solo, em relação a escarificação mecânica, onde as raízes, são muito mais eficientes na formação de macroporosidade e microporosidade do solo.

 

Experimento

           Em localidades onde as condições climáticas são desafiadoras no período da segunda safra, como no Cerrado Brasileiro, com inverno seco e com diminuição do fotoperíodo, se faz imprescindível implementar o sistema culturas com capacidade de cobertura através de critérios técnicos avaliados, dentre os principais, a escolha da espécie, a qual deve estar adaptada às condições climáticas da respectiva região (SILVA e ROSOLEM, 2001). Além disso, as espécies devem apresentar rusticidade, desenvolvimento inicial acelerado e alta produção de biomassa na estação da seca (AMADO et al, 2002).            Dessa forma, o experimento a seguir avalia a produção de biomassa e matéria seca de diferentes plantas de cobertura no município de Itumbiara-GO, o qual apresenta clima úmido tropical, com duas estações bem definidas, seca no inverno e úmida no verão, com precipitação média anual de 1200 e 1800 mm.

         A tabela a seguir apresenta, as culturas de coberturas que foram implementadas nesse experimento e as tabelas posteriores os resultados das avaliações de matéria fresca e matéria seca que foram realizadas aos 65 dias após o plantio das culturas.

 

Tabela 3: Relação dos tratamentos e quantidades de sementes utilizados em um hectare.

 

 

 

Fonte: Contecc, 2021.

 

Figura 11 : Biomassa por hectare para Brachiaria (Urochloa ruziziensis), Mombaça (Megathyrsus maximus), Milheto (Pennisetum glaucum), Mucuna (Stizolobium aterrimum), Crotalária (Crotalaria juncea), aos 65 dias após o plantio ( Itumbiara, GO, 2019).

 

 

 

 

Fonte: Contecc, 2021.

 

Figura 12 : Massa seca por hectare para Brachiaria (Urochloa ruziziensis), Mombaça (Megathyrsus maximus), Milheto (Pennisetum glaucum), Mucuna (Stizolobium aterrimum), Crotalária (Crotalaria juncea), aos 65 dias após o plantio ( Itumbiara, GO, 2019).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Contecc, 2021.

 

Assim, conclui-se que o milheto proporcionou o maior acúmulo de biomassa verde e seca em relação às outras plantas de cobertura.

 

Conclusão

         Portanto, nota-se uma extrema importância para a implantação das plantas de cobertura no sistema devido suas atividades na física, química e biologia do solo, dando uma maior agregação e estruturação ao perfil do solo, bem como contribuindo como um estratégia de controle de plantas daninhas, manejo de pragas e doenças. Além de serem excelentes recicladoras de nutrientes, contribuindo para a fertilidade dos solos. Assim, em sistemas de segunda safra, onde os desafios enfrentados com condições edafoclimáticas mais desafiadoras, a implantação de plantas de cobertura é uma excelente alternativa para o manejo dos solos.

 

 

Autores: Bok-xêa (Vitor Ferrari Sia) e Bok-sãta (Maria Eduarda Paes).

 

 

Referências:

AGRICONLINE. Plantas de cobertura de solo para sistema plantio direto. Disponível em: https://agriconline.com.br/portal/artigo/plantas-de-cobertura-de-solo-para-siste ma-plantio-direto/. Acesso em: 24 mar. 2025.

EMBRAPA. Plantas de cobertura: cobertura do solo, reciclagem de nutrientes e biodiversidade no sistema de produção. Piracicaba: ESALQ/USP, 2006. Disponível em: https://www.esalq.usp.br/biblioteca/pdf/Livro_Plantas_de_Cobertura_completo .pdf. Acesso em: 24 mar. 2025.

GENICA. Culturas de cobertura. Disponível em: https://agro.genica.com.br/2024/03/01/culturas-de-cobertura-2/. Acesso em: 24 mar. 2025.

ROESE, Alexandre Dinnys; GARCIA, Rodrigo Arroyo. Mofo-branco (Sclerotinia sclerotiorum) em crotalárias no sistema de produção de soja. Dourados: Embrapa Agropecuária Oeste, 2019. 8 p. (Embrapa Agropecuária Oeste. Comunicado Técnico, 253). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1122007/1/COT253-.pdf. Acesso em: [25/03/2025].

VIEIRA, Wenis Alves; LAMBERT, Ricardo Alexandre; NONATO, Antonio Carlos; CANTUÁRIO, Idelmar da Silva; PEREIRA, Jardel Lopes. Seleção de plantas de cobertura para segunda safra no Cerrado. In: CONGRESSO TÉCNICO CIENTÍFICO DA ENGENHARIA E DA AGRONOMIA – CONTECC, 2021. Anais [...]. Disponível em:https://www.confea.org.br/midias/uploads-imce/Contecc2021/Agronomia/SELE% C3%87%C3%83O%20DE%20PLANTAS%20DE%20COBERTURA%20PARA%20S EGUNDA%20SAFRA%20NO%20CERRADO.pdf. Acesso em: 24 mar. 2025.

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