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Informativo GEA

Diatrea saccharalis: biologia, danos e manejo
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1. INTRODUÇÃO

            A broca da cana-de-açúcar, ou broca dos colmos (Diatraea saccharalis) é uma das principais pragas encontradas nos canaviais, preocupando os produtores de todo o Brasil. Por mais que sejam típicas pragas da cana-de-açúcar, podem ser encontradas em ampla escala em outras culturas como o milho, o sorgo e arroz, em que existe uma grande redução de produtividade (AFONSO, 2009).

            Por ser uma praga nativa das Américas, acredita-se que ela já existia no Brasil até mesmo antes da cultura ser introduzida no país. Com o cultivo em larga escala nos primórdios da colonização, a broca vem sendo muito recorrente e marcante nas lavouras de cana (AFONSO, 2009).

            No cenário canavieiro essa praga pode causar prejuízos de até R$ 5 bilhões por safra, se não forem realizados os devidos controles, ressaltando a necessidade de atenção. De acordo com a infestação atual da broca da cana, os principais motivos para que o aumento da incidência são: fatores climáticos, plantio de variedades mais suscetíveis, aumento das áreas fertirrigadas (nitrogênio), aumento das áreas colhidas sem queimar a cana, aumento do plantio de milho, sorgo e arroz, e uma redução de investimentos.

2. BIOLOGIA

            A broca da cana de açúcar pertence à ordem Lepidoptera, ordem das mariposas e borboleta, e à família Crambidae. Essa família é comumente chamada de “mariposas-da-grama”, o que se relaciona ao fato da broca infestar uma gramínea com grande interesse comercial (FILHO, 2023). O adulto da praga se trata de uma mariposa de cor amarelo-palha, com uma envergadura de 2,5 cm, já a larva acaba sendo um pouco menor, com 2,3 cm e com uma coloração branca nas primeiras fases de vida, adquirindo uma coloração creme e algumas pontuações marrons no seu dorso, conforme se desenvolve.

            O ciclo de vida da praga se inicia com a fase de ovo, que são amarelados e colocados na face abaxial da folha e de maneira sobreposta, recebendo o nome

popular de “escama de peixe”. As fêmeas conseguem colocar de 300 a 600 ovos de uma vez só, sendo 50 ovos, uma média por ciclo produtivo. Os ovos eclodem em um intervalo de tempo de 4 a 9 dias, dando origem às larvas de primeiro ínstar (AFONSO et al., 2009).

            O ciclo de vida completo da broca da cana tem uma duração de 60 a 90 dias, com a fase larval durando em torno de 40 a 60 dias. As lagartas recém nascidas apresentam o hábito de raspar as folhas da planta para sua alimentação, ingerindo o parênquima foliar, e após a primeira ecdise, se encaminham até as partes mais moles do colmo, geralmente próximas aos entrenós, para fazerem um orifício, que vai no sentido de baixo para cima, e se alimentar do conteúdo interno do colmo. A quantidade de ínstares larvais é bem variável, com relatos de até dez ínstares marcados, porém o mais comum é a presença de 5 a 6 ínstares (HOLLOWAY et al., 1928).
 

Figura 01: Broca da cana em fase larval

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: Koppert, s.d.
 

            As larvas são de uma coloração branca-creme e com a cabeça marrom, medindo 2,3 cm, podendo exibir diferenças na coloração dependendo da época do ano. No verão a praga pode apresentar manchas marrons por todo o corpo, com alguns pelos robustos saindo dessas manchas. No inverno é comum a ausência dessas manchas, verificando-se apenas a presença dos pelos na região onde as manchas podem aparecer (CRUZ, 2007).

            Após essa fase de larva ocorre a formação de uma pupa. As pupas apresentam de 16 mm a 20 mm de comprimento, apresentando coloração marrom. No interior da planta, a larva amplia e limpa o túnel antes de se transformar em pupa, deixando uma pequena barreira de tecido vegetal fino no orifício do buraco, que é rompido pela mariposa. A fase de pupa dura entre 9 e 14 dias (CRUZ, 2007).

            Após esse tempo, a pupa se transforma em uma mariposa adulta que sai do interior da planta para que possa dar continuidade ao ciclo, promovendo o acasalamento e a oviposição. Os machos são menores do que as fêmeas, podendo medir de 18 mm a 28 mm, enquanto as fêmeas medem de 27 mm a 39 mm,eacor varia entre amarelada e amarela-palha. Os adultos têm hábitos mais noturnos, se escondendo à luz do dia e saindo no final da tarde para realizar a oviposição, que se estende até o período da noite. Possuem uma longevidade de 8 a 15 dias e podem apresentar de 4 a 5 gerações por ano (CRUZ, 2007).

Figura 02: Broca da cana em fase adulta

Fonte: Koppert, s.d.

Figura 03: Ciclo de vida da Diatraea saccharalis

Fonte: Syngenta, s.d.

3. DANOS

3.1 Diretos

            Os danos diretos são a morte da gema apical, sintoma conhecido como “coração morto”, quebra da cana por conta de galerias no colmo, germinação de gemas laterais e encurtamento do entrenó. Um dos danos mais explícito é a perda de massa, sacarose e qualidade dos colmos. A infestação por broca no canavial pode resultar em um prejuízo estimado de R$5 bilhões por safra. O tombamento das plantas do perfilho também é um dano causado com frequência, já que devido ao fato do colmo se tornar, cada vez mais, oco por conta da quantidade de matéria ingerida pela larva e pelo surgimento de galerias transversais, a ação dos ventos pode acabar impulsionando esse tombamento da cana-de-açúcar (Moraes, J. C., 2009).

Figura 04: Sintomas de coração morto na cana.

Fonte: Embrapa, 2022.

3.2 Indiretos

            Já os danos indiretos são causados por infecções oportunistas que usufruem das cavidades expostas pelas larvas nos colmos. Um exemplo é o “complexo broca-podridão”, já que a podridão vermelha (Colletotrichum falcatum) está bem associada a estas infecções, sendo responsável pelo avermelhamento da parte interna dos colmos. A doença causa também uma perda da pureza e uma inversão da sacarose, diminuindo a qualidade do caldo e o rendimento industrial na produção de açúcar e/ou etanol, além de uma possível contaminação durante o processo de fermentação alcoólica, visto que os microrganismos contaminantes vão competir com as leveduras. Para cada 1% de Índice de Intensidade de Infestação Final da praga (quantidade de entrenós atacados pelo complexo broca-podridão), há um prejuízo de 0,42% na produção de açúcar ou se for visando a produção de álcool, o prejuízo será de 0,25%, e mais 1,14% na produção total de cana de açúcar (TCH) (GARCIA, 2013).

 

Figura 05: Sintomas do complexo broca-podridão.

Fonte: Arquivo pessoal, 2025.

            Estudos mostram que há uma relação bem mais estabelecida entre o fungo e a mariposa, na qual a própria praga acaba sendo um vetor da doença, e não apenas um facilitador para que ela se estabeleça no colmo. O fungo produz compostos voláteis que são capazes de atrair fortemente a broca, dessa forma, ao consumir uma planta infectada, a Diatraea adquire o patógeno e o transmite para todas as suas futuras gerações, potencializando o poder de infecção do fungo (IRALA, 2021).

            Segundo Marcio de Castro Silva Filho, professor do Departamento de Genética da Esalq, estudos apontam que a dispersão na planta pelo fato da praga ser um vetor é dez vezes maior do que se o patógeno apenas aproveitasse as galerias como uma oportunidade de contaminação.

            O fungo é capaz de alterar compostos voláteis produzidos naturalmente pela planta, fazendo com que ela produza compostos que atraem a fêmea da mariposa, promovendo a contaminação. Também, os adultos realizarão a oviposição em plantas que não estejam contaminadas com o fungo, aumentando o potencial de dispersão (IRALA, 2021).

Figura 06: Diagrama de interações entre o fungo, o inseto e a planta no complexo broca-podridão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Jornal da USP, 2021

4. CONTROLE
4.1. Amostragem

            A amostragem de Diatraea saccharalis pode ser realizada de algumas formas simples, focando na captura de lagartas, ou na captura de adultos.

            Quando se fala em amostragem de lagartas, deve-se verificar a presença da praga em todos os colmos que estão presentes em 20 metros lineares em um hectare. Esses 20 metros lineares podem estar dispostos em 4 pontos aleatórios no talhão, todos com 5 metros lineares, na qual devem ser analisadas as duas linhas de cana que percorrem esses metros (PINTO et al., 2009).

            Deve-se abrir os colmos de uma maneira transversal, com o intuito de encontrar colmos brocados, ou que contenham lagartas em seu interior. Deve-se visualizar as folhas de maneira cuidadosa para verificar a presença de larvas menores nos primeiros ínstares de vida. A porcentagem de internódios atacados é obtida com a divisão entre a quantidade de internódios bloqueados e a quantidade de internódios analisados. O nível de controle gira em torno de 3% a 5% de infestação (PINTO et al., 2009).

            Buscando amostrar os adultos, são utilizadas armadilhas com plataforma adesiva e que contenham fêmeas virgens com 24 horas de vida em seu interior. Dessa forma, os feromônios atraem os machos da Diatraea, sendo possível monitorar o nível de infestação. São utilizadas de duas a quatro armadilhas por hectare, espalhadas em pontos aleatórios do canavial, posicionados próximos à bordadura. O nível de controle é de pelo menos 6 machos capturados em 30% das armadilhas colocadas no talhão (PINTO et al., 2009).

4.2. Controle biológico

            O controle biológico de Diatraea saccharalis é realizado por meio de vespas da espécie Cotesia flavipes, que parasitam a praga durante a fase de larval. Por ser um parasitóide, a vespa só consegue completar o seu ciclo de vida se associando à broca. As vespas picam as lagartas e depositam seus ovos, em grande quantidade, no organismo de tais, dessa forma, ao eclodirem, as larvas de Cotesia deixam a lagarta exaurida, provocando a sua morte. Logo que saem do corpo da lagarta já empupam para dar origem a novos adultos, que irão acasalar e parasitar outras lagartas (NAVA et al., 2009).

            Geralmente são utilizadas cerca de 6.000 vespinhas por hectare, distribuídas em 4 pontos do tralhão. A soltura pode ser realizada manualmente, por meio de copos com grande quantidade de vespas no interior (1.500 vespas), ou por meio de drones, com algumas cápsulas que contenham o parasitóide (NAVA et al., 2009).

Figura 07: Cotesia flavipes parasitando larvas de Diatraea

Fonte: Gebio, s.d.

            Outra forma de controle biológico da praga é por meio de Trichogramma galloi, uma microvespa que é responsável por parasitar a broca durante a fase de ovo. O parasitóide apresenta desenvolvimento holometábolo, que ocorre inteiramente dentro do ovo da broca da cana-de-açúcar, e pode durar de 8 a 15 dias, impedindo que o ovo ecloda e libere larvas de Diatraea. A multiplicação eficaz das microvespas ressalta a eficácia no controle.

Figura 08: Trichogramma galloi parasitando ovos de Diatraea

Fonte: Gebio, s.d.

4.3. Controle químico

            O manejo químico deve ser uma estratégia para controle de lagartas, que acabaram de ser eclodidas, antes de ocorrer a perfuração do colmo, pois após as larvas se adentrarem no colmo a efetividade dos inseticidas é menor. Um dos produtos comerciais que ganham bastante destaque é o Ampligo (Syngenta), com os princípios ativos de Clorantraniliprole (Antranilamida) e Lambda-Cialotrina (Piretróide), existindo também o Altacor (FMC) com, somente Clorantraniliprole.

Alguns exemplos de produtos com registro para a Diatraea saccharalis são:

4.4. Controle genético

            A biotecnologia é uma alternativa muito promissora para o manejo da broca da cana. As proteínas tipo Cry que são extraídas de Bacillus thuringiensis (Bt) controlam a praga, interferindo e criando poros no intestino dos insetos, provocando a sua morte. A variedade da CTC (Centro de Tecnologia Canavieiro), CTC20BT, ganhou bastante destaque por ser a primeira variedade lançada com tecnologia Bt para o combate da broca no cenário da canavieiro.

5. CONCLUSÃO

            A broca da cana-de-açúcar (Diatrea saccharalis) é uma praga muito problemática para a cultura da cana-de-açúcar, devido ao seu ciclo biológico adaptado às condições dos canaviais e os danos causados nos colmos, que vai reduzir a produtividade do canavial, qualidade da indústria e favorecer danos indiretos, como o complexo broca-podridão. É necessário um manejo integrado, que envolva um bom monitoramento, controle biológico, uso de inseticidas e adoção de cultivares geneticamente modificados. Portanto, compreender a biologia, danos e manejo é fundamental para planejar estratégias para controlar a broca da cana-de-açúcar.

6. REFERÊNCIAS

CRUZ, I. A broca da cana-de-açúcar, Diatraea saccharalis, em milho, no Brasil. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2007. (Circular Técnica, 90). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/476711/1/Circ90.pdf. Acesso em: 29 out. 2025.

IRALA, Bruna. O maestro de uma orquestra: fungo causador da podridão-vermelha controla inseto e planta para se disseminar. São Paulo: Jornal USP, 14 jun. 2021. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/o-maestro-de-uma-orquestra-fungo-causador-da-

podridao-vermelha-controla-inseto-e-planta-para-se-disseminar/. Acesso em: 30 out. 2025.

NAVA, D. E.; ROSA, A. P. S. A. da; MELO, M.; PINTO, A. de S.; SILVA, S. D. dos A. Controle biológico da broca-da-cana-de-açúcar. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2009. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/903788/1/brocacana.pdf. Acesso em: 29 out. 2025.

ROSA, A. P. S. A.; NAVA, D. E.; MARTINS, J. F. da S.; MELO, M.; SILVA, S. D. dos A. A broca-da-cana-de-açúcar. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, fev. 2009. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/747870/1/broca cana2.pdf. Acesso em: 28 out. 2025.

SILVA, Sérgio Delmar dos Anjos; MONTERO, Cândida Raquel Scherrer; SANTOS, Renato Cougo dos; NAVA, Dori Edson; GOMES, Cesar Bauer; ALMEIDA, Ivan Rodrigues de. Sistema de Produção da Cana-de-açúcar para o Rio Grande do Sul. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 2016. ISSN 1676-7683. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1076617/1/Sistemade Producao23Incluido4.pdf. Acesso em: 28 out. 2025.

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