
Informativo GEA
​A resposta do agronegócio à crise do COVID-19
O agronegócio, naturalmente, é um setor da economia que tem como características a imprevisibilidade. Tendo em vista a atual conjuntura, o clima não está sozinho como grande empecilho para realização de um prognóstico do agro; com o chegada da COVID-19, um cenário nunca antes vivido se tornou realidade em 2020. A economia global será seriamente impactada, e no Brasil, a cadeia do agronegócio mais uma vez está sendo vista como promissora para o país. Entretanto, enquanto algumas áreas estão sendo beneficiadas por preços atrativos, devido ao aumento do dólar, alguns setores já começam a sentir o impacto.
Com o PIB brasileiro projetado para uma redução de 1,18%, segundo dados do Banco Central, o poder aquisitivo da população é seriamente afetado. Tendo isso em vista, e levando-se em consideração o isolamento social, os produtos de maior valor agregado voltados ao mercado interno já começam a sentir uma retração na demanda. Dentre os produtos impactados estão os derivados de leite, hortifrutícolas de maior perecibilidade, o setor de flores e biocombustíveis (CEPEA, 2020).
O setor de hortaliças é fortemente afetado, sobretudo os pequenos produtores, que dependem de uma cadeia logística, que atualmente opera de forma reduzida por medidas de isolamento, e pelo fechamento de restaurantes. Para as carnes, com uma diminuição na renda, a população tende a aumentar a demanda pela proteína de frango, contudo, em razão da peste suína africana o mercado externo para carne bovina e suína se mantém aquecido (CEPEA, 2020).
O setor de lácteos esperava um aumento na demanda, graças a valorização do dólar, que desestimula a importação de matérias-primas. Todavia, com a chegada da COVID-19 esse cenário está mudando. O anúncio do isolamento fez com que, a princípio, a demanda crescesse, tendo em vista que, parte da população adotou como estratégia estocar comida. Contudo, o fechamento dos serviços de alimentação impacta seriamente o escoamento dos derivados de leite, principalmente os queijos. Segundo dados em um relatório publicado no dia 7 de abril pelo CEPEA, os queijos correspondem a “30% da alocação de leite nas indústrias”. No mesmo relatório, especialistas ressaltam a dificuldade de prever o cenário das próximas semanas, visando que “o processo de formação de preços ao produtor ocorre a partir da venda dos derivados”.
Os impactos da paralisação do país também atingem fortemente o setor sucroalcooleiro. Em uma entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, Fábio Venturelli, presidente do Grupo São Martinho, um dos principais produtores do País, aponta que o consumo de combustíveis no Brasil caiu mais de 50% nas últimas semanas. Além disso, com a queda no preço do petróleo, em razão do conflito entre a Rússia e Arábia Saudita, a gasolina se torna mais barata nos postos. A queda nos preços ocorre justamente no início da safra de cana, e por isso, segundo Venturelli o setor está focando na produção de açúcar, já que têm preços garantidos por contratos fechados no passado. O empresário espera uma recuperação no consumo de combustíveis com o final da quarentena, já que as pessoas terão vontade de se movimentar após o tempo em casa.
O cenário de exportação se mantém positivo, mesmo com a crise, instabilidade e incertezas. Países estão buscando montar estoques de alimentos, mantendo a alta demanda de soja e milho. O Brasil, que é um grande exportador dessas commodities, está se beneficiando da oportunidade, uma vez que o elevado preço do dólar favorece o produtor na venda. Além disso, o governo argentino restringiu a operação dos portos no país, elevando a demanda por soja brasileira. Em função disto, espera-se uma disparidade entre o PIB da agropecuária e da economia em geral (CEPEA, 2020).
O preço do milho preocupa produtores com lavouras de segunda safra em campo, segundo a Scot Consultoria, o preço do milho oscilou negativamente no “mercado interno em função das incertezas com relação à demanda e uma maior oferta”. Apesar disso, a consultoria alerta que a oferta do cereal ainda não é grande, e caso a COVID-19 não afete a demanda os preços podem se recuperar.
Vale ressaltar que, com o dólar valorizado, a compra de insumos para próxima safra será afetada. Acarretando em um expressivo aumento nos custos de produção da safra 2020/2021, posto que, uma parcela significativa dos insumos e fertilizantes são importados. Segundo dados elaborados pela Secretaria de Comércio e Relações Internacionais (SCRI) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), as vendas externas no mês de março foram de U$ 9,29 bilhões, incremento de 13,3% em relação ao ano passado; com um importante adendo que o agro foi responsável por 48% das exportações. Os principais produtos que levaram a esse aumento “foram soja em grãos (US$ 3,98 bilhões), açúcar (US$ 441 milhões) e carne bovina in natura (US$ 555 milhões) ” (MAPA, 2020). Como visto anteriormente, a soja está sendo a grande responsável pelo cenário positivo, e segundo dados da AgRural a colheita da oleaginosa já atinge 89% da área plantada no Brasil. Em suma, o agronegócio não está atravessando a crise ileso. Porém mesmo com alguns setores sendo mais prejudicados, no contexto geral, o saldo é positivo, e mais uma vez está contribuindo expressivamente para o superávit da balança comercial brasileira.
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Redigido por:
Gustavo R. Carramate
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Referências:
CEPEA. Especial Coronavírus e o Agronegócio. Cepea, Piracicaba, p. 1-13, 7 abr. 2020. Disponível em: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/documentos/texto/especial-coronavirus-e-o-agronegocio-volume-1.aspx. Acesso em: 13 abr. 2020.
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CEPEA. Especial Coronavírus e o Agronegócio: Impactos no PIB e no mercado de trabalho do agronegócio. Cepea, Piracicaba, p. 1-11, 13 abr. 2020. Disponível em: https://cepea.esalq.usp.br/br/documentos/texto/especial-coronavirus-e-o-agronegocio-volume-2.aspx. Acesso em: 13 abr. 2020.
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DORIGATTI, Guilherme. Milho começa a semana pressionado no mercado interno em meio às incertezas sobra demanda. 2020. Disponível em: https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/milho/256797-milho-comeca-a-semana-pressionado-no-mercado-interno-em-meio-as-incertezas-sobra-demanda.html#.XpXLochKg2x. Acesso em: 13 abr. 2020.
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MAPA. Exportações do agronegócio totalizam US$ 9,2 bilhões em março: soja em grãos, carne bovina in natura e açúcar puxam as vendas externas. Brasília: Mapa, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/exportacoes-do-agronegocio-totalizam-us-9-2-bilhoes-em-marco. Acesso em: 13 abr. 2020.
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NOTÍCIAS AGRÍCOLAS. Colheita de soja atinge 89% da área plantada no Brasil, diz AgRural. 2020. Fonte: AgRural. Disponível em: https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/soja/256811-colheita-de-soja-atinge-89-da-area-plantada-no-brasil-diz-agrural.html#.XpXL0MhKg2x. Acesso em: 13 abr. 2020.
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SCHELLER, Fernando; SCARAMUZZO, Mônica. ‘O agronegócio garante alimento na mesa na crise’, diz presidente do Grupo São Martinho: com 90% da equipe de 12,5 mil trabalhadores na ativa, gigante sucroalcooleira prioriza a produção de açúcar em tempos difíceis para o etanol. : Com 90% da equipe de 12,5 mil trabalhadores na ativa, gigante sucroalcooleira prioriza a produção de açúcar em tempos difíceis para o etanol. O Estado de S. Paulo. São Paulo, p. 1-2. 08 abr. 2020. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-agronegocio-garante-alimento-na-mesa-na-crise-diz-presidente-do-grupo-sao-martinho,70003265156. Acesso em: 13 abr. 2020.
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FONTE: Foco Rural
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FONTE: AEREDE
