Informativo GEA
Guia de interpretação de análise do solo


1 INTRODUÇÃO
1.1. O que é a Análise de Solo?
A análise do solo é uma técnica muito utilizada com a finalidade de entender as necessidades do seu solo e entender sua dinâmica no meio ambiente, isso ajuda a reduzir custos e apoiando em uma maior produtividade e saúde do solo RONQUIM, 2010; SOBRAL et al., 2015). A primeira fagulha sobre esse conceito surgiu em meados do século XIX, por volta de 1840, quando o químico alemão Justus von Liebig formulou a teoria da nutrição mineral das plantas. Existem dois tipos de análise de solo mais recorrentes nos dias de hoje, a química e a física.
Com respeito a análise química do solo, podemos dizer que ela tem caráter relativamente variável, pelo fato de que os nutrientes que estamos avaliando nessa situação mudarem de safra para safra, já que a cultura exporta nutrientes após a colheita. Essa análise, por meio de técnicas laboratoriais que simulam como as raízes extraem os nutrientes do solo, definindo a disponibilidade de macro e micronutrientes presentes naquele solo, ela também define a CTC do solo, teor de matéria orgânica, níveis de acidez e pH do solo, ou seja, adubação, calagem e gessagem são todas pensadas, por meio dessa técnica (SOBRAL et al., 2015; BRASIL; CRAVO; VIEGAS, 2020; EMBRAPA, 2022)
Em relação a análise física do solo, avalia-se a textura do solo (proporção de areia, silte e argila), essa relação não se altera muito ao decorrer do tempo, então uma única análise dessa textura já é suficiente. Alguns dos resultados obtidos, através dessa análise são: análises granulométricas (teor de areia, silte e argila), densidade do solo e de partículas, porosidade ,condutividade hidráulica, retenção de umidade, estabilidade de agregados, limite de liquidez, plasticidade e superfície específica. Esses conhecimentos são de suma importância para manter a área agronomicamente viável por mais tempo e impedir a degradação do solo (SOBRAL et al., 2015).
1.2. Entendendo as Unidades de Medida
É importante salientar que para entender e tomar cálculos baseados na análise de solo, é de suma importância interpretar e entender as unidades de medida ali presentes. Lembrando que no laudo é utilizado o Sistema Internacional de Unidades, porém, alguns laboratórios podem optar por não utilizar esse sistema de medida, dessa forma, existem alguns fatores de conversão (SOBRAL et al., 2015).
Quadro 1 - Fatores para conversão de unidades antigas em unidades do Sistema Internacional de Unidades.
Fonte: Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
2. ANÁLISE FÍSICA
2.1. Textura do Solo (Argila, Silte e Areia):
A textura do solo é um conceito referente a propriedade que diz respeito à distribuição das partículas em relação ao seu tamanho no solo. Atrelado a esse conceito, temos a definição de classe textural do solo, que diz respeito à classificação de solos utilizando-se da prerrogativa proposta no conceito anterior.
A fim de diminuir o grau de abstração, existem classificações que têm o intuito de nomear as partículas em relação ao seu tamanho. Segue abaixo a tabela que distingue as partículas de acordo com o seu tamanho (PEREZ, 2017) .
Quadro 2 - Classificação de partículas por tamanho.
Fração Tamanho (mm)
Areia grossa 2-0,2
Areia Fina 0,2-0,05
Silte 0,05-0,002
Argila <0,002
Fonte: Elaborado pelo autor, 2026.
Em relação a isso, desenvolve-se o conceito de classe textural, mencionado anteriormente. Desta forma, essa classificação se baseia na proporção de cada uma das frações citadas acima na composição do solo, destrinchando em uma variedade de classificações de solo, elucidado pelo triângulo textural (PEREZ, 2017) .
Imagem 1 - Triângulo textural.
Fonte: Instituto Federal do Ceará, sd.
2.2. A Influência da Argila na Adubação:
Como visto previamente, a argila representa a fração do solo com o menor tamanho de partícula, portanto, apresenta também a maior área de superfície específica, que é um indicador da relação entre a área total de superfície de um sólido em relação ao seu volume (PEREZ, 2017) .
Desta maneira, a capacidade de retenção de um nutriente no solo e a sua capacidade de ser absorvido pela planta são diretamente influenciadas pela proporção de frações com diferentes áreas de superfície específica. Essas características podem ou não serem percebidas na análise de solo, a depender do método utilizado, sendo importante levar isso em consideração na hora de avaliar uma análise de solo (RONQUIM, 2010; SOBRAL et al., 2015).
3. ACIDEZ E TOXIDEZ
3.1. Acidez Ativa em água vs. em CaCl e relação pH nutrientes
O solo é um complexo como partículas sólidas, água e íons. Dentro desse complexo, existem íons H⁺ (hidrogênio) e Al³⁺ (alumínio) — esses dois são os principais responsáveis pela acidez no solo, quanto mais deles, mais ácido o solo e consequentemente, mais problemas para as plantas. Mas esses íons não ficam todos no mesmo lugar. Eles estão em três reservatórios diferentes no solo começando com o primeiro deles, temos a acidez ativa, que pode ser considerada tanto em água, quanto em CaCl₂. A acidez ativa consiste no H⁺ livre que está dissolvido na solução do solo, é o que medimos por meio do pH, pode ser considerado o parâmetro mais importante do laudo, pois influencia diretamente na disponibilidade de praticamente todos os nutrientes (RONQUIM, 2010; SOBRAL et al., 2015) .
Imagem 2 - Influência do pH na disponibilidade de macro e micronutrientes.
Fonte: Adaptado de malavolta, 1990.
Por meio desse gráfico de malavolta vemos como o pH afeta os nutrientes e sua disponibilidade. Com base nisso, é observado que a faixa ideal de pH para um bom equilíbrio de nutrientes e consequentemente melhor desempenho de culturas é por volta de 6,0 a 6,5 em água e 5,5 a 6,0 em CaCl₂, mas afinal, qual a diferença entre esses dois indicadores (água e cloreto de cálcio). O pH em água, é quando se misturado o solo com água pura e medido o pH, é mais intuitivo e tradicional, porém, o pH da água pode variar com a umidade do solo, ou seja, um solo seco daria um pH diferente de úmido, o que poderia gerar problemas entras as análises. E em CaCl₂, é diferente, ele possui um efeito solução tampão padronizada, forçando concentração de íons constante durante a medição, dessa forma as inconsistências dos laudos são reduzidas e ele acaba se perpetuando como na maioria dos laboratórios e boletins brasileiros (SOBRAL et al., 2015; BRASIL; CRAVO; VIEGAS, 2020).
3.2. Acidez Trocável
A acidez trocável diz respeito ao Al³⁺ e H⁺, os quais estão fixados nas partículas do solo, porém podem ser liberados na solução, principalmente com a aplicação de calcário. Esses íons estão presentes na CTC, então acabam ocupando lugares que deveriam estar com bases como Cálcio e Magnésio. O alumínio e o hidrogênio se soltam quando outro cátion se fixa no mesmo lugar. Aqui, o principal problema é o Al³⁺, que é altamente tóxico para as plantas mesmo em concentrações baixas. Ele danifica as pontas das raízes, impede a absorção de bases e reduz drasticamente o volume de solo explorado pelas raízes. Com a elevação do pH acima de 5,5 pela calagem, o Al³⁺ (tóxico) passa para a forma insolúvel Al(OH)₃ (não tóxica). Após uma calagem bem executada, o teor de Al³⁺ deve assumir valor próximo de zero. A acidez trocável é medida com KCl 1 mol/L, o potássio tem a função de deslocar o Al³⁺ e o H⁺ dos sítios de troca para a solução, onde serão titulados (BRASIL; CRAVO; VIEGAS, 2020). Algumas interpretações que podemos ter:
Quadro 3 - Classes de interpretação para Al3+.
Fonte: Prezotti et al. (2007).
A saturação por alumínio (m%), também é um índice muito usado derivado da acidez trocável, e pode ser calculado com: m (%) = (Al3+ ÷ CTC) x 100.
3.3. Acidez Potencial
Por fim, temos a acidez potencial que seria o reservatório total presente no solo, ou seja, a soma da acidez trocável e não trocável do solo que é representada pelo H+Al, como é chamada de potencial significa que caso mude algo, como alteração de pH ou até decomposição de matéria orgânica, essa acidez pode vir a ser prejudicial. Esse conceito é importante para o cálculo da calagem, pois a CTC utilizada na fórmula considera a acidez potencial, representada principalmente por H⁺ e Al³⁺, sendo diretamente relacionada à necessidade de calagem. Dessa forma, a correção deve considerar não apenas a acidez ativa presente na solução do solo, mas também aquela que está potencialmente retida nos coloides (SOBRAL et al., 2015).
4. COMPLEXO SORTIVO, CTC E V%
4.1. As Bases Trocáveis: O papel do Cálcio, Magnésio, Potássio e Sódio.
As bases trocáveis são os elementos do solo de interesse agronômico, uma vez que englobam nutrientes e elementos benéficos para as plantas e diminuem a acidez do solo (RAIJ et al., 2001).
4.2. Capacidade de Troca Catiônica (CTC):
A Capacidade de Troca Catiônica (CTC) é um índice que mede a capacidade de cátions se ligarem à superfície negativamente carregada dos colóides do solo. Uma maneira de se enxergar a CTC é como uma medida da capacidade de armazenar nutrientes, que sejam cátions, e outros cátions no solo. Vale ressaltar que a CTC é um indicador de fertilidade de solo, porém isso depende da distribuição da sua ocupação entre nutrientes e elementos maléficos (MELO; ALLEONI, 2009).
4.3. Saturação por Bases
A saturação por bases, representada por V%, é um indicador da porcentagem da CTC que é ocupado pelas bases Ca, Mg e K dentre o total de cátions que está ocupando a CTC em um pH igual a 7 (VAN RAIJ, 2011).
4.4. Equilíbrio das Bases: A proporção ideal entre Cálcio, Magnésio e Potássio no solo.
O equilíbrio de cátions é um fator essencial a ser considerado numa análise de solo, tendo em vista que a proporção entre esses elementos deve seguir um certo padrão. A fim de evitar que um se sobressaia sobre o outro e que um ocupe o lugar do outro. De maneira geral, deve-se considerar um valor de 60% a 70% como o ideal da ocupação da CTC pelo Ca, 10% a 20% para o Mg e 3% a 5% para K (ALVAREZ V.; RIBEIRO, 1999).
5. INTERPRETAÇÃO DOS NUTRIENTES E DA MATÉRIA ORGÂNICA
5.1. Matéria Orgânica (MO)
Um indicador muito importante já que vai influenciar diversos fatores como fornecimento de nutrientes, estrutura do solo, capacidade de troca de cátions, a atividade de seres vivos, pode ajudar na retenção de água e influencia bastante a disponibilidade de nitrogênio. Infelizmente, os solos brasileiros possuem baixo teor de matéria orgânica quando comparados a solos subtropicais (CERRI et al., 2008).
Quadro 5 - Interpretação de Matéria Orgânica no solo.
Fonte: Prezotti et al. (2007).
Um fato importante a ser comentado consiste em que solos arenosos e com baixos teores de matéria orgânica estão mais suscetíveis à lixiviação, sendo necessário parcelamento da adubação (CANTARELLA, 2007).
5.2. Fósforo
O fósforo possui dois jeitos de ser analisado, Mehlich-1 e a Resina de Troca Iônica, o primeiro é utilizado na maioria dos estados, enquanto o segundo é mais utilizado do estado de SP, importante salientar também que para interpretarmos o fósforo disponível para as plantas, precisamos entender o que é P-rem. O fósforo remanescente (P-rem) está mais relacionado a capacidade do solo de adsorver aquele fósforo, então quanto mais argiloso, mais matéria orgânica no a gente possui um menor P-rem afetando a fração de P obtida pelo extrator, por isso, os limites utilizados para classificar o P disponível variam conforme as características do solo (RAIJ et al., 1997; ALVAREZ V. et al., 2000).
Quadro 6 - Estimativa de textura pelo P-rem.
Fonte: Prezotti et al. (2007)
Quadro 7 - Classes de disponibilidade de P (Extrator Mehlich-1).
Fonte: Raij et al. (1996) — IAC/ESALQ-USP.
5.3. Potássio
A análise de solo desse nutriente revela, apenas o K disponível para ser absorvido pelas plantas, no entanto, mais de 90% do potássio presente no solo está em formato indisponível (ERNANI; ALMEIDA; SANTOS, 2007).
O potássio geralmente não é aplicado todo de uma vez, principalmente quando são utilizadas doses elevadas. Isso ocorre porque grandes quantidades de fertilizantes potássicos, como o KCl, podem aumentar a concentração de sais na solução do solo, dificultando a absorção de água pelas raízes e podendo causar efeito de salinidade sobre as plantas. Além disso, o excesso de K pode interferir na absorção de outros nutrientes, principalmente cálcio e magnésio. Por isso, dependendo da dose e das condições do solo, recomenda-se o parcelamento da adubação potássica (ERNANI; ALMEIDA; SANTOS, 2007).
Quadro 8 - Interpretação de potássio na análise de solo.
Fonte: Prezotti et al. (2007); Raij et al. (1996) — IAC/ESALQ-USP
5.4. Cálcio e Magnésio
São os cátions mais presentes e que mais participam da CTC e os que mais influenciam no V%, no entanto possuem certo antagonismo, como competem pelos mesmos pontos de absorção, o excesso de um pode atrapalhar ou inibir a absorção do outro, dessa forma têm que serem mantidos em equilíbrio no solo com uma proporção de 3:1 até 5:1, sendo o primeiro o cálcio e o segundo o magnésio (MALAVOLTA, 2006; VITTI; LIMA; CICARONE, 2006).
Quadro 9 - Classes de interpretação para Ca e Mg.
Fonte: Prezotti et al. (2007); Novais et al. (2007) — UFV
5.5. Micronutrientes e Enxofre
O enxofre consiste em um macronutriente que acaba passando despercebido às vezes, o que é um grande problema, já que esse nutriente é importante para o metabolismo do nitrogênio e para a defesa natural da planta contra pragas, por exemplo. O gesso é uma fonte de enxofre já consolidada na agricultura. Outras fontes desse nutriente incluem os fertilizantes à base de sulfatos e o enxofre elementar (VITTI; HEIRINCHS, 2007).
Quadro 10 - Interpretação de Enxofre no solo.
Fonte: Prezotti et al. (2007).
Quanto aos micronutrientes, sua análise é mais complexa, pois cada elemento apresenta características específicas, como solubilidade, mobilidade e interação com o pH e a matéria orgânica do solo. Dessa forma, sua disponibilidade para as plantas pode variar de acordo com as condições do solo. (pH, matéria orgânica, entre outros) dessa forma, essas variadas condições podem influenciar a interpretação da disponibilidade desses nutrientes. O extrator mais comum nesse tipo de análise é o Mehlich-1, exceto para Boro, que usa água quente (LOPES; CARVALHO, 1988; ANDRADE, 2001).
Quadro 11 - Classes de interpretação para micronutrientes disponíveis no solo.
Fonte: Prezotti et al. (2007); Novais et al. (2007) — UFV/SBCS.
6. TABELA PRÁTICA
Para finalizar, é importante resumir o assunto, com um tabela visual que tem como base os valores de de limite de referência dos principais nutrientes: Para essa análise em específico foram utilizadas as seguintes ferramentas: Extratores: P, Ca, Mg, K = Resina; Zn, Cu, Mn, Fe, Mo = DTPA, Boro = água quente. Lembrando que esse não é um parâmetro universal, dependendo dos tipos de extratores utilizados e como foi realizada essa análise esses dados podem sofrer alteração (SOBRAL et al., 2015; RAIJ et al., 1997; ANDRADE, 2001).
Quadro 12 - Intervalos de valores baixos, médios e altos para interpretação da análise de solo.
Fonte: Embrapa, (2025).
Autores: Gabriel Hubner de Miranda Cassandro (Çuarez) e Felipe Magossi Rodrigues (Marquês).
Referências:
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