Informativo GEA
Lagarta do Cartucho do Milho


1 INTRODUÇÃO
A lagarta-do-cartucho no milho Spodoptera frugiperda (J. E. Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) é um grande desafio na produção da cultura do milho praticamente em todas as regiões do Brasil. Devido à maior difusão e ocorrência do cultivo de milho em 2° safra, do sistema de plantio direto e aliado a adoção de irrigação por pivô central, cuja permitiu crescimento ainda maior e exploração de áreas que anteriormente ao sistema de irrigação não tinham potencial para 2 safras no ano, a Spodoptera frugiperda apresentou mudanças “induzidas” de comportamento.
Essa alteração no comportamento da lagarta-do-cartucho está diretamente ligada à intensificação dos sistemas de produção agrícola, tendo como destaque a adoção do plantio direto e da sucessão soja-milho. Essas práticas fizeram com que tivesse uma maior disponibilidade contínua de alimentos ao longo do ano, como consequência favoreceu a sobrevivência e propagação da Spodoptera frugiperda. Além disso, a redução do período de entressafra e a sobreposição de ciclos da cultura proporcionou um aumento da pressão de seleção sobre a população da praga, o que resultou em adaptações comportamentais. Como consequência, observa-se não apenas o ataque no cartucho, mas também o corte de plântulas e ataque nas espigas (YAMAMOTO, Pedro T., 2026).
2. IDENTIFICAÇÃO
Tendo em vista a frequente ocorrência de outros indivíduos do gênero Spodoptera, bem como de outras lagartas que podem, ocasionalmente, causar confusão, algumas características do Lepidóptero em questão podem ser observadas visando identificação facilitada, sendo as principais: Coloração parda e acinzentada, três linhas longitudinais de coloração clara e duas faixas escurecidas, no dorso e nas laterais, respectivamente. Para além, apresenta o expressivo “Y” invertido na cápsula cefálica, e 4 círculos que perfazem um quadrado ao fim do penúltimo segmento abdominal (ROSA, Ana P.; BARCELOS, Higor T., 2012; CORTEVA, 2023).
Outras características anatômicas a serem visualizadas são os três pares de pernas torácicas e cinco pares de falsas pernas abdominais (ROSA, Ana P.; BARCELOS, Higor T., 2012).
Imagens 1 e 2: Spodoptera frugiperda em visão lateral; “Y” invertido na cápsula encefálica.
Fonte: Corteva, 2023.
Imagem 3: Características para identificação de S. frugiperda.
Fonte: André Consonni, s.d.
3. CICLO
Após a oviposição, os ovos expressam coloração claro-esverdeado, tornando-se escuros próximo à eclosão da larva, que ocorre cerca de 3-4 dias após a postura.
A fase larval pode apresentar de 6 a 8 ínstares, em um período que dura, em média, 23 dias. O princípio da fase ocorre com alimentação da estrutura dos ovos e, posteriormente, das folhas mais jovens do milho (no cartucho), de forma a deixar sintoma de “raspagem”. Com o crescimento da lagarta e a chegada a ínstares mais desenvolvidos, os danos passam a ser mais intensos e formam, de fato, orifícios nas folhas jovens. A título de compreensão, no último ínstar o corpo da lagarta medirá cerca de 35mm, e nota-se que, devido ao hábito canibal, observa-se apenas 1 lagarta adulta por cartucho, embora possam ser vistas lagartas em ínstares diferentes em uma mesma planta, desde que setorizadas pelas lâminas foliares no cartucho (ROSA, Ana P.; BARCELOS, Higor T., 2012; GALLO, D., 2002).
Imagem 4: Spodoptera frugiperda em diferentes ínstares.
Fonte: Paulo Lanzetta, s.d.
Encerrado o período larval, há o direcionamento das lagartas para o solo para o período pré-pupal e, posteriormente, de pupa. Importante salientar que, embora ocorra com maior frequência no solo, pode apresentar-se em diferentes partes da planta. A fase em questão é bastante dependente da temperatura, podendo expressar duração de 8 até 25 dias, no verão e inverno, respectivamente (ROSA, Ana P.; BARCELOS, Higor T., 2012; GALLO, D., 2002).
Já na fase adulta, a mariposa de Spodoptera frugiperda apresenta coloração cinza-escuro, com envergadura de até 4 cm, e a oviposição pode alcançar até 1000 ovos por fêmea da espécie. Desta forma, o ciclo completo da espécie varia de 32 a 46 dias (ROSA, Ana P.; BARCELOS, Higor T., 2012; GALLO, D., 2002).
Imagem 5: Ciclo da S. frugiperda.
Fonte: Revista Cultivar, s.d.
Imagem 6: Mariposa de S. frugiperda.
Fonte: Paulo Lanzetta, s.d.
4. DANO
Os danos causados pela Spodoptera frugiperda na cultura do milho podem acarretar perdas de até 40-50%. A planta de milho fica mais sensível ao ataque da lagarta-do-cartucho quando a infestação inicia-se entre 40 e 60 DAE. As lagartas, inicialmente, raspam a superfície da folha, deixando uma membrana translúcida no limbo foliar. À medida que crescem, migram para o cartucho, onde começam a atacar as folhas novas e a parte apical do colmo, deixando-as recortadas e detritos no interior do cartucho do milho (MOREIRA, Henrique J. C.; ARAGÃO, Flávio D., 2009).
Quando as plantas estão mais desenvolvidas, as lagartas podem atacar o pendão e as espigas. Além disso, podem atacar na fase inicial da lavoura, cortando as plântulas rente ao solo, causando redução de estande e comprometendo a produção, haja vista que o milho não tem a plasticidade de adaptar se à diferentes arranjos espaciais, como a soja, de forma a compensar, ao menos em parte, a produção na ausência de plantas em seus arredores(MOREIRA, Henrique J. C.; ARAGÃO, Flávio D., 2009).
Imagem 7: Dano da S. frugiperda na folha.
Fonte: Manual de pragas do milho, 2009.
Imagem 8: S. frugiperda e resíduos no interior do cartucho do milho.
Fonte: Manual de pragas do milho, 2009.
Imagem 9: Corte de plântula por S. frugiperda.
Fonte: Daniel Fragoso, s.d.
5. CONTROLE
5.1 BIOLÓGICO
A ferramenta mais utilizada no controle de Lagarta-do-cartucho, de forma microbiológica, são os vírus da família Baculoviridae, específicamente “Spodoptera frugiperda multiple nucleopolyhedrovirus”. A infecção ocorre por meio da ingestão e penetração do agente viral nas células epiteliais do intestino médio dos insetos, e posterior “soltura” dos vírions, através da dissolução das matrizes proteicas por conta do pH básico do intestino, na parcela interna das células citadas (VALICENTE, F. e TUELHER, E., 2009).
Após o estabelecimento inicial, há um acelerado processo de replicação viral, acarretando infecção generalizada dos tecidos do Lepidóptero e posterior ruptura de células infectadas, dispersando mais unidades infecciosas e levando a larva à morte, seguida de liquefação dos tecidos afetados (VALICENTE, F. e TUELHER, E., 2009).
Importante ressaltar, também, a diferença de eficiência de controle da praga a depender do estágio de desenvolvimento desta, sendo indicado sempre aplicações em lagartas mais jovens, visando maior efetividade de resultado.
Imagem 10: Ilustração dos ínstares larvais e momentos de aplicação de baculovírus.
Fonte: AgBiTech, s.d.
Imagem 11: Ciclo do baculovírus na lagarta.
Fonte: Adaptado de SZEWCZYK et al., 2006.
5.2 QUÍMICO
Tendo em vista a alta incidência da praga nas lavouras brasileiras aliada à baixa disponibilidade de princípios ativos que apresentem alta eficácia, o panorama dos inseticidas utilizados vem repetindo-se, safra após safra. Neste contexto, com base na tabela de análise de eficiência de ativos abaixo, em experimento realizado em Maracaju/MS, na safra 21/22, observam-se melhores resultados em redução de danos por parte dos seguintes ativos: Clorfenapir, Benzoato de emamectina, Indoxacarb+Novaluron, Metomil, Clorantraniliprole, Flubendiamida e Espinetoram.
Tabela 1: Dano ocasionado por Spodoptera frugiperda em plantas de milho aos 4, 7, 10 e 14 dias após a aplicação (DAA) e eficiência de controle, segundo Abbott (1925).
Fonte: Fundação MS, 2021.
5.3 GENÉTICO
A bactéria Bacillus thuringiensis (Bt) é muito usada como bioinseticida por conta de sua alta eficiência no controle de pragas e por não apresentar riscos aos produtores, consumidores e ao meio ambiente, devido à sua dinâmica de dissociação e intoxicação: Proteínas Cry são “pró-toxinas”, portanto, em sua forma “inicial”, não oferecem toxicidade para o indivíduo afetado. Para que o mecanismo de ação dessas proteínas ocorra, é necessário a proteólise destas liberando δ-endotoxinas que, por sua vez, se ligam aos sítios de ação. Contudo, a proteólise em questão ocorre apenas em ambiente alcalino (Intestino dos insetos afetados), não ocorrendo toxidez em seres onde o estômago/intestino tem caráter ácido, como no caso dos mamíferos. Enquanto ocorre a fase de esporulação, a bactéria produz cristais proteicos compostos por toxinas Cry, que são específicas para determinados grupos de insetos. No trato digestivo, essas toxinas são ativadas, se ligam a receptores do intestino e provocam a disrupção do gradiente osmótico, acarretando extravasamento celular e morte (TEODORO, et al., 2015).
A partir desses mecanismos, genes da bactéria Bt foram inseridos na cultura do milho, originando o milho Bt. No Brasil, seu cultivo foi autorizado a partir de 2008/2009. (TEODORO, et al., 2015).
Diversas tecnologias utilizando a bactéria Bt foram desenvolvidas, combinando diferentes toxinas, como Cry1Ab, Cry1F, Cry1A105, Cry2Ab2 e VIP3Aa20, aumentando a eficiência no controle de pragas. Há muitos benefícios atribuídos ao cultivo do milho Bt, como a redução da aplicação de inseticidas. Entretanto, o maior risco dessa tecnologia está na sua utilização de forma inadequada, levando ao surgimento de indivíduos resistentes, que não são mais sensíveis à bactéria Bt (MENDES, Simone M.; WAQUIL, José M., 2009).
Neste âmbito, a problemática da grande capacidade adaptativa e polífaga da S. frugiperda é expressada. Em dados atuais, esperava e observava-se controle satisfatório da lagarta-do-cartucho por parte da proteína VIP3Aa20, contudo, nas safras mais recentes, essa ferramenta tem apresentado falhas consistentes.
Tabela 2: Tecnologia Bt disponível nas culturas do milho e as respectivas proteínas expressas.
Fonte: Pedro Yamamoto, 2026.
6. CONCLUSÃO
Portanto, conclui-se que a lagarta-do-cartucho, se destaca como uma das principais pragas na cultura do milho no Brasil, devido seu potencial de dano, rápida capacidade de reprodução e capacidade de se desenvolver em diferentes culturas. Sua infestação está ligada às técnicas agrícolas atuais, como o plantio direto e a introdução do milho safrinha. Diante desse cenário desafiador, o controle da Spodoptera frugiperda deve ser realizado de forma integrada, adotando o manejo biológico, químico e genético. Nesse contexto, o controle adequado dessa praga é de extrema importância para garantir altas produtividades e sustentabilidade da cultura do milho.
Autores: Álvaro Borsatto Mariussi (Só-vai); Arthur Ferreira de Rezende (Bakulejo)
7. REFERÊNCIAS
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