Informativo GEA
Utilização de maturadores no cafeeiro


INTRODUÇÃO
1.1. Importância do café
O café figura como uma das bebidas mais consumidas globalmente, ocupando a segunda posição no ranking de consumo no Brasil. O país consolida-se como o maior produtor e exportador mundial, desempenhando um papel socioeconômico vital ao gerar renda e expressivo volume de empregos diretos e indiretos.
Atualmente, as exportações cafeeiras representam aproximadamente 2% do valor total das vendas externas brasileiras. Com uma receita cambial anual próxima a US$ 2 bilhões e um volume médio de 26 milhões de sacas exportadas, a cultura reafirma sua importância estratégica na balança comercial do país.
1.2. Desafios na maturação dos frutos
Um dos principais problemas quanto à colheita do café gira em torno da desuniformidade de maturação dos frutos, que se dá devido às múltiplas floradas que se tem em uma única planta de café (Matiello et al., 2010). Além disso, o fato da maturação ser de uma maneira não uniforme é derivado de diversos fatores, tais como, diferença na exposição à radiação solar, que acaba se condicionando por conta do auto sombreamento e pela direção de plantio da lavoura.
Durante esse processo é possível ter diversos tipos e idades de frutos ao longo dos ramos o que, de certa forma, prejudica o processo de colheita, pensando que a máquina terá que passar mais de uma vez no mesmo pé de café para colher os frutos que já atingiram a maturação, o que pode trazer danos à planta, quebrando ramos e perdendo folhas (Silva et al., 2013).
Além disso, é possível que uma parte considerável dos frutos caia no chão, pois ficaram maduros e não foram colhidos no tempo ideal. Também, durante a colheita, principalmente a mecanizada, há a mistura de diversos tipos de grãos (chumbinho, cereja, passa, etc.). Essa heterogeneidade da matéria-prima compromete a uniformidade da secagem e a qualidade sensorial da bebida, dificultando a obtenção de lotes com maior valor agregado.(Santinato et al., 2017).
1.3. Relevância do uso de maturadores
O posicionamento de maturadores é uma alternativa para agilizar o processo de colheita e auxiliar na manutenção da qualidade dos lotes de café (REHAGRO, 2026). Ele acelera a maturação dos frutos, devendo ser utilizados com cautela, considerando adequadamente a época de colheita (Matiello et al., 2010).
Figura 1 - Imagem de uma colheita mecanizada de café.
Fonte: (REVISTA CULTIVAR, 2026).
2. MATURADORES NA CULTURA DO CAFÉ
2.1. Conceito e definição
Maturadores são aceleradores de maturação, em que seu produto comercial mais conhecido é o Ethrel (Ethephon - Ácido 2 - cloroetil fosfônico) que auxilia na programação da colheita. Essa substância que acelera a maturação dos frutos é absorvida por meio de uma reação, onde vai ser decomposta no citosol liberando o gás etileno (REHAGRO, 2026).
Nesse processo, ocorre o incremento da taxa respiratória, o que acelera o metabolismo de maturação dos frutos. Na cultura do cafeeiro, a ação do etileno promove a degradação da clorofila e a síntese de pigmentos secundários, resultando no desverdecimento do epicarpo e do pedúnculo. Além disso, o etileno estimula a formação da camada de abscisão, reduzindo a força de retenção do fruto e facilitando a derriça, o que permite a antecipação estratégica da colheita. (REHAGRO, 2026)
Como a liberação do etileno catalisa a maturação, existem os retardadores de maturação que visam uniformizar a maturação dos frutos em que vão atuar inibindo a síntese de etileno, reduzindo parte da queda dos frutos que são provenientes das primeiras folhas (REHAGRO, 2026).
Dentre as tecnologias de manejo da maturação, destaca-se o uso de produtos à base de acetato de potássio, como o Mathury. Sua ação fisiológica concentra-se nos frutos em estádio cereja, reduzindo a taxa metabólica e, consequentemente, retardando a transição para o estádio passa ou seco. Simultaneamente, o produto permite que os frutos verdes completem seu desenvolvimento fenológico até o estádio cereja. Dessa forma, obtém-se uma 'janela de colheita' mais ampla e homogênea, maximizando o volume de frutos com o maior potencial de qualidade sensorial. (Matiello et al., 2010).
3. MECANISMO DE AÇÃO
3.1. Fisiologia da maturação do café
Figura 2 - Fases do café durante dois anos
Fonte: (REHAGRO, 2026).
Diferentemente da maioria das culturas frutíferas que completam seu ciclo reprodutivo em um único ano fenológico, o cafeeiro apresenta um ciclo de frutificação que se estende por aproximadamente dois anos (REHAGRO, 2026). Este fenômeno é caracterizado pela sobreposição de fases, onde o crescimento vegetativo ocorrido no primeiro ano é o determinante para a diferenciação floral e subsequente produção de frutos no ano subsequente.
O ciclo fenológico do cafeeiro é subdividido em seis fases distintas, sendo as duas primeiras estritamente vegetativas e as quatro subsequentes de caráter reprodutivo. Segundo a classificação de Camargo e Camargo (2001), adotada por AGROPÓS (2026), estas fases compreendem:
-
Vegetação e formação de gemas foliares;
-
Indução e maturação das gemas florais (dormência);
-
Florada (antese);
-
Granação dos frutos (expansão rápida e endosperma);
-
Maturação dos frutos (síntese de açúcar e mudança de cor);
-
Senescência dos ramos terciários e quaternários, com a consequente redução da área foliar produtiva.
Durante seu ciclo, o café depende tanto do ambiente, assim como a genética das plantas, em que os hormônios vegetais, mesmo em condições baixas, promovem ou inibem diversas características da planta (REHAGRO, 2026).
Entre os principais grupos de hormônios vegetais incluem a Auxina, citocinina, giberelina, ácido abscísico e etileno. Entre os grupos clássicos de hormônios vegetais, destacam-se as auxinas, citocininas, giberelinas, ácido abscísico e etileno (REHAGRO, 2026).
A sucessão das fases vegetativas e reprodutivas no cafeeiro culmina com a emissão das inflorescências, processo que ocorre predominantemente durante a primavera. Após a antese, inicia-se a frutificação, cujas etapas de desenvolvimento e maturação se estendem ao longo do ano fenológico, sendo influenciadas diretamente pelas condições climáticas e pelo estado nutricional da planta (CAMARGO; CAMARGO, 2001).
3.2. Como os maturadores atuam
Após a aplicação do produto, o ethephon (ácido 2-cloroetilfosfônico) é absorvido pelos tecidos da planta de café. Essa molécula trata-se de um precursor da molécula do hormônio vegetal etileno (C2H4), ou seja, nas condições ideais de temperatura e pH, o ethephon sofre uma decomposição química que dará origem ao fitormônio, que é responsável, principalmente pelo amadurecimento dos frutos. Assim, ocorre uma aceleração na maturação dos frutos, principalmente os que estão em estádio intermediário de desenvolvimento.
Figura 3: Molécula do etileno.
Fonte: (REHAGRO, 2026).
4. APLICABILIDADE E MOMENTO DE USO
Quanto à aplicabilidade do manejo, a avaliação deve ser realizada por talhão, seguindo protocolos específicos de amostragem. Na análise de granação e maturação, são preconizadas duas coletas distintas: a primeira, realizada no terço inferior da planta, visa determinar o percentual de frutos granados. A segunda coleta abrange os terços inferior, médio e superior, com o objetivo de quantificar a porcentagem de frutos no estádio 'cereja'. Metodologicamente, a avaliação de granação exige o corte transversal dos frutos para análise do endosperma, enquanto a avaliação de maturação baseia-se na determinação visual da proporção de frutos maduros em relação ao lote coletado (AGROPÓS, 2026).
Quanto ao posicionamento do ETHREL 720, deve ser seguido por recomendações técnicas dos fabricantes, no qual será feita quando 90% dos frutos da saia (terço inferior) da planta estiverem completamente maduros. Determinada essa fase, a aplicação deve ser conduzida com equipamentos que permitem uma vazão em de 500 a 750 litros/ha, tendo uma boa uniformidade e cobertura para todos os frutos, utiliza - se 130 ml/100 L de água, no modo que se realize no máximo uma aplicação por ciclo (REVISTA CULTIVAR, 2026).
A aplicação deve ser realizada, preferencialmente, 30 dias antes do início previsto para a colheita. Após este manejo, é fundamental que a colheita ocorra no momento tecnicamente ideal, visando mitigar prejuízos à qualidade sensorial da bebida. Quanto à tecnologia de aplicação, não se recomenda a mistura com produtos de reação alcalina, uma vez que a estabilidade e a eficácia do princípio ativo dependem de um meio com pH entre 5,0 e 6,0."
Carvalho et al., 2003 selecionou 50 ramos para avaliação de fitotoxicidade, onde testou diferentes vazões, onde o Ethrel 720 não apresentou fitotoxicidade em nenhuma vazão, garantindo a seletividade do produto.
Figura 4: Avaliação de fitotoxicidade em relação a aplicação de Ethrel, A - Sem aplicação, B - Aplicação a 200 L/ ha de vazão, C - Aplicação a 800 L/ha de vazão.
Fonte: COSTA et al. (2025).
5. BENEFÍCIOS E CUIDADOS DO USO DE MATURADORES
Os maturadores podem ser posicionados visando uma antecipação de poda, além do escalonamento, quando uma determinada propriedade possui cultivares com maturação semelhantes, o posicionamento do maturador permite reduzir o pico da safra e escalonar bem a colheita, assim como uma viabilidade econômica maior, já que permite que o produtor processe melhor os frutos e diminua a demanda de secadores e terreiros de terceiros (REHAGRO, 2026).
Além de outros benefícios como a redução de frutos que caem no chão, em muitos casos, sem a necessidade de mão de obra na área como a varrição (REHAGRO, 2026).
Talhões situados em áreas com menor incidência de radiação solar e alta umidade relativa são rotineiramente mais suscetíveis à ocorrência de fermentações indesejáveis nos frutos. Nessas condições, o posicionamento estratégico de maturadores torna-se uma ferramenta de manejo essencial, permitindo a antecipação da colheita e a retirada do café do campo antes que o excesso de umidade comprometa a qualidade sensorial da bebida (REHAGRO, 2026).
E por fim, como os maturadores ajudam no desprendimento do fruto, as plantas exigem uma menor vibração das colhedoras, diminuindo os danos nessas lavouras, de modo que facilite a colheita dessas lavouras (REHAGRO, 2026).
Figura 5 e 6 - À esquerda imagem da testemunha, à direita imagem aos 22 dias após a aplicação de Ethrel 720.
Fonte: DIA DE CAMPO (2019).
Tabela 1: Valores de p>F obtidos para tratamento com maturador, para frutos de café bóia (B), Verde
(V), Cereja © e total (T)
Fonte: SANTOS et al., 2010.
Tabela 2: Valores média de produção de café bóia (B), Verde (V), cereja © e total (T) em função de
tratamento com maturador
Pelo teste de tukey a 5 % de probabilidade, valores seguidos de letras iguais não diferem entre si
Fonte: SANTOS et al., 2010.
Tabela 3:- Valores de p> F obtidos para tratamento com maturador, para porcentagem de frutos tipo bóia (B), Verde (V), Cereja © de café
Fonte: SANTOS et al., 2010.
Tabela 4: Valores médio de porcentagem de frutos de café tipo Bóia (B), Verde (V) e Cereja © em
função do maturador
Fonte: SANTOS et al., 2010.
Os maturadores não alteram a produtividade, porém eles tiveram um efeito na uniformização e maturação dos frutos, apenas na redução de frutos verdes e aumento dos frutos cerejas, catalisando a maturação desses frutos (SANTOS et al., 2010).
É importante que se respeite doses e momentos de aplicação de maturadores no cafeeiro, já que, em alguns casos, podem ocorrer alguns problemas como desfolha excessiva, queda de frutos, falhas no enchimento de grãos, alteração na qualidade da bebida, dentre outros problemas que atrapalham a produção. É necessário entender que cada cultivar de café reage de uma maneira aos maturadores, sendo assim, é preciso entender sobre a planta para que se possa fazer um melhor uso dos produtos (Silva et al., 2013).
6. CONCLUSÃO
A adoção do Ethrel 720 (Etefon) como maturador fisiológico configura-se como uma estratégia eficaz para a catalisação da maturação e a antecipação da colheita cafeeira. Os resultados demonstram que o uso dessa tecnologia proporciona benefícios significativos, com destaque para a otimização do aproveitamento operacional e a redução de perdas qualitativas em talhões críticos. Fisiologicamente, o Etefon em formulação líquida atua de forma otimizada em caldas com pH entre 5,0 e 5,5, sendo translocado e convertido em gás etileno nos tecidos vegetais. Esse processo mimetiza o amadurecimento natural, estimulando a síntese de enzimas que promovem o desverdecimento e a formação da camada de abscisão, viabilizando um planejamento de safra mais assertivo e rentável (BAYER CROPSCIENCE, 2006).
Autores: Jean M. Cipriano Simões (100-travã-t); Pedro Chequito Neto (K-tá)
Referências:
AGROPÓS. Fisiologia do cafeeiro. 2026. Disponível em: https://agropos.com.br/fisiologia-do-cafeeiro/. Acesso em: 1 abr. 2026.
BAITELLE, D. C.; MIRANDA, G. B.; VERDIN FILHO, Abraão Carlos; FREITAS, S. J.; VIEIRA, K. M.; BARONI, D. F. Uniformidade de maturação do café arábica em função da poda programada de ciclo. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PESQUISAS CAFEEIRAS, 42., 2016, Serra Negra, SP. Resumos. Brasília, DF: Fundação Procafé, 2016. Disponível em: https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/item/2530/1/BRT-Uniformidadema turacaoPPCA-verdin.pdf. Acesso em: 2 abr. 2026.
BENASSI, Bruno José Pereira Mendonça. Comportamento do cafeeiro após aplicação de doses de maturador na 1a safra. 2020. Trabalho de conclusão de curso (Graduação) – Centro Universitário do Sul de Minas, Varginha, 2020. Disponível em: http://repositorio.unis.edu.br/bitstream/prefix/1477/1/BRUNO%20JOS%C3%89%20P EREIRA%20MENDON%C3%87A%20BENASSI.pdf. Acesso em: 2 abr. 2026.
COSTA, Aramis Benedito Almeida; RIBEIRO, Humberto Corrêa Bonfim; COSTA JUNIOR, Joildo Fernandes; PARREIRA, Douglas Silva. Uso do Ethrel 720® na maturação uniforme e suas implicações na conservação pós-colheita de cafeeiros arábica. Revista FT, Ciências Agrárias, v. 29, ed. 152, nov. 2025. Disponível em: https://revistaft.com.br/uso-do-ethrel-720-na-maturacao-uniforme-e-suas-implicacoes -na-conservacao-pos-colheita-de-cafeeiros-arabica/. Acesso em: 5 abr. 2026.
DIA DE CAMPO. Uso de maturadores na cultura do café. [S. l.], 2026. Disponível em: http://www.diadecampo.com.br/zpublisher/materias/Newsletter.asp?id=21559&secao =Gest%E3o. Acesso em: 1 abr. 2026.
MATIELLO, J. B. et al. Cultura de café no Brasil: novo manual de recomendações. Rio de Janeiro: MAPA/PROCAFÉ, 2010.
REHAGRO. Maturadores na cultura do café: saiba mais sobre a utilização. 2026. Disponível em: https://rehagro.com.br/blog/maturadores-na-cultura-do-cafe/. Acesso em: 31 mar. 2026.
REVISTA CULTIVAR. Correto uso de maturadores. 2026. Disponível em: https://revistacultivar.com.br/artigos/correto-uso-de-maturadores. Acesso em: 1 abr. 2026.
SANTINATO, F. et al. Mecanização da colheita do café: influência da maturação e da carga pendente. 2017.
SANTOS, A. R. dos; CARVALHO, M. P. de; FREDDI, O. da S.; MONTANARI, R.; GONÇALVES, E. C. P. Atributos físicos de um Latossolo Vermelho sob diferentes sistemas de uso e manejo. Revista Cultura Agronômica, Ilha Solteira, v. 19, n. 3, p. 314–326, 2010. Disponível em: https://ojs.unesp.br/index.php/rculturaagronomica/article/view/2193/1647. Acesso em: 3 abr. 2026.






















