Informativo GEA
Manejo de nematóides na soja: alternativas químicas e biológicas


1 INTRODUÇÃO
1.1 Importância Econômica da soja
A soja (Glycine max) é uma das principais culturas cultivadas no Brasil, destacando-se em todos os parâmetros agronômicos e econômicos. O país conta com 48,8 milhões de hectares plantados da cultura, com uma produção de 180,4 milhões de toneladas, na safra 25/26 (CONAB), o que posiciona o país no primeiro lugar no ranking mundial de produção da cultura.
Segundo o CEPEA, a participação total da cadeia produtiva de soja no PIB brasileiro foi projetada para 661,02 Bilhões em 2026, o que representa 21,2% do PIB gerado pelo agronegócio e 4,8% do PIB total do país.
Dessa forma, percebe-se que os aumentos na produção e produtividade da soja do país acompanharam os aumentos nos índices econômicos da mesma, e foram motivados pela evolução tecnológica e tecnificação das lavouras.
No entanto, existem diversos componentes que tornam-se limitadores de produção, isto é, causam algum tipo de dano à produção, diminuindo-a e causando dano econômico.
1.2 Importância dos nematóides como fator limitante de produção
Os nematóides fitoparasitas enquadram-se com um dos principais limitantes de produção na cultura da soja. As perdas anuais giram em torno de R$35 bilhões entre todas as culturas e de R$16,2 Bilhões para a soja.
Nesse sentido, faz-se necessário o entendimento da biologia e dos danos dessas espécies, visando o manejo fitossanitário correto, a fim de minimizar os danos e permitir o pleno desenvolvimento da soja no país.
Figura 1: Lavoura de soja infestada por nematóides, na qual é possível perceber a presença de reboleiras.
Fonte: SOESP, s.d.
2. Nematóides Associados a cultura da soja
2.1 Características gerais dos nematóides fitopatogênicos
Os nematoides são seres vivos eucariontes pluricelulares pertencentes ao filo Nematoda, do Reino Animalia. São vermiformes de corpo cilíndrico e não segmentado, o que os difere de vermes platelmintos e anelídeos (minhocas), e podem atingir tamanhos variados, usualmente na casa dos 0,2-2mm.
Dentre suas formas de vida, os nematóides podem ser classificados como de vida livre, que representam a grande maioria, zooparasitas e fitoparasitas, que representam as espécies de interesse agronômico. Nesse último caso, o endoparasitismo se destaca, configurando a necessidade de parasitar as estruturas celulares do hospedeiro para sobreviver, eventualmente destruindo as células e reiniciando o processo de infecção (CAIRES, 2019).
Uma característica elementar para a identificação de fitonematoides em detrimento de seres de vida livre é a presença de estilete bucal, estrutura que injetam nos tecidos do hospedeiro para viabilizar sua alimentação. A introdução exclusiva desse estilete e a entrada integral do nematoide no tecido vegetal é o que os diferenciam entre ectoparasitas e endoparasitas, respectivamente.
Eles também podem se diferenciar em migratórios e sedentários. Migratórios, como é o caso dos Pratylenchus, por exemplo, atacam as células momentaneamente e depois a deixam, partindo para outros ambientes. Esse movimento mata as células rapidamente, o que implica em uma agressividade maior desses grupos (ELEVAGRO, 2020).
Já os nematoides sedentários permanecem dentro do hospedeiro até a finalização de seu ciclo e, apesar de causarem danos graves ao hospedeiro, garantem sua manutenção extensiva, para que o ciclo de parasitismo possa ser mantido. Nesses casos, as fêmeas no estágio reprodutivo sofrem modificação em seus corpos, assumindo formas arredondadas por conta dos ovos em seu interior, o que transfere às raízes características de engrossamento. Exemplos desse grupo são os nematoides dos cistos (Heterodera glycines) e o gênero dos Meloidogyne (ELEVAGRO, 2020).
Todos os nematoides são muito dependentes da disponibilidade hídrica do solo e das suas componentes texturais para se transportar e consequentemente seguir com seu ciclo. A sua mobilidade é facilitada em solos arenosos em detrimento de argilosos, haja vista que dependem dos espaços porosos para se deslocar. Ainda, estudos demonstram que o aumento populacional de fitonematoides é diretamente proporcional à maior presença de frações arenosas e água no solo (60% da capacidade de campo), o que, ainda assim, possibilita a mobilidade real dos microrganismos de apenas alguns centímetros ao longo de um ano (BARROS, 2016).
2.2 Principais espécies de importância agrícola na soja
Com relação à soja e também boa parte das outras grandes culturas do Brasil, as cinco espécies a seguir reúnem a maior relevância.
Figura 2: Distribuição regional de nematoides na cultura da soja: dados de ocorrência no Centro-Norte e Sul do Brasil em 2024.
Fonte: Staphyt Brasil (2024).
2.2.1 Meloidogyne spp
Conhecido como nematoide das galhas, as principais espécies desse gênero pensando na soja são Meloidogyne javanica e Meloidogyne incognita. Mais favorecidos por faixas de pH entre 4,5-5,5, esses parasitas podem colocar em média 400 ovos por ciclo de 25 dias. Esses endoparasitas, além de se reproduzirem dentro dos tecidos vegetais, secretam substâncias que interferem na divisão e diferenciação celular, provocando um crescimento desordenado das células e um posterior engrossamento e deformidade das estruturas radiculares (as “galhas”).
Figura 3: Sintoma característico de Meloidogyne spp.
Fonte: Cristiano Bellé, 2020.
2.2.2 Heterodera Glycines
O nematoide dos cistos da soja tem se revelado um grande problema para grandes produtores brasileiros. A espécie possui uma gama de patótipos (raças), variações genéticas dentro de uma mesma espécie que tornam difícil um controle amplo padronizado. Atualmente, estima-se no mundo 14 raças desse nematoide, 11 delas ativas no Brasil.
Espécies como milho e algodão não são acometidos pelo parasita, o que pode ser uma alternativa de rotação de área para controle da infestação. No entanto, sua alta prolificidade e a retomada anual de uma safra de soja amplamente difundida impede que um controle cultural seja estabelecido de forma eficaz.
A espécie é favorecida em pH acima de 6,0, acendendo sinal de alerta para super calagem em solos argilosos com alta fertilidade.
Figura 4: Sintoma característico de Heterodera Glycines.
Fonte: Revista Cultivar, 2024.
2.2.3 Pratylenchus Brachyurus
Espalhado por todo o território nacional, o nematoide das lesões radiculares é também muito relevante para as culturas do milho cana-de-açúcar e algodão. um endoparasita migratório, cujo dano vem da sua entrada e alimentação do conteúdo das células vegetais e da sua posterior saída, abrindo cavidades no interior das raízes. Deixam marcas escuras características no sistema radicular que são porta de entrada para outros patógenos.
Figura 5: Sintoma característico de Pratylenchus Brachyurus.
Fonte: Syngenta Digital, 2019.
2.2.4 Rotylenchulus reniformis
Originalmente, o Rotylenchus é um fitonematoide central para a cultura do algodão, mas a dinâmica de sucessões soja-algodão (safra-safrinha) principalmente no Centro-Oeste brasileiro, contribuiu para que o parasita se adaptasse a ambos os cultivos, passando a representar um problema substancial para a cultura da soja, também. É um parasita endógeno sedentário e a denominação “reniforme” corresponde ao seu formato semelhante ao de um rim. Seu ciclo de vida não difere muito das demais espécies.
Figura 6: Ciclo de vida da espécie Rotylenchus Reniformis.
Fonte: ScienceDirect, 2024.
3. DIAGNOSE E MONITORAMENTO DE NEMATÓIDES
O diagnóstico dos nematóides associados à cultura da soja é uma etapa fundamental para a definição de estratégias eficientes de manejo. Embora as diferentes espécies possam provocar sintomas característicos nas plantas de soja, a observação visual da lavoura, isoladamente, não é suficiente para determinar a presença, a espécie, a densidade populacional e o grau de dano causado por essas pragas.
Nesse sentido, a observação visual deve vir seguida da avaliação do sistema radicular, e, principalmente, a coleta e análise de amostras de solo e raízes, que são direcionadas para laboratórios especializados. A correta identificação permite as tomadas de decisão mais assertivas no manejo.
Os primeiros sinais que podem indicar a ocorrência de nematóides em uma área são a formação de reboleiras e o crescimento visual reduzido da planta. As reboleiras representam manchas na lavoura que, nitidamente, apresentam menor vigor e folhas amareladas. Algumas espécies de nematóides apresentam um sintoma característico, chamado “Folha carijó, que são manchas cloróticas que surgem nas nervuras das folhas.Entretanto, a manifestação dos sintomas pode variar consideravelmente em relação à espécie de nematóide, a população presente no solo, a cultivar utilizadas e as condições do solo e do ambiente.
Figura 7: Manchas cloróticas na nervura das folhas, que representam a “folha carijó”.
Fonte: Instagram, 2021.
Ao analisar os danos causados pelos nematóides-das-galhas, pertencentes ao gênero Meloidogyne, é comum observar plantas pequenas e amareladas distribuídas em reboleiras. As folhas apresentam clorose, e, pode haver o abortamento de vagens e amadurecimento prematuro. A avaliação das raízes é importante, pois a infecção desse tipo de nematóide promove a formação de galhas, nas quais podem ser encontradas as fêmeas do nematóide. Dois fatores que influenciam na intensidade dos sintomas são a suscetibilidade da cultivar e a densidade populacional do nematóide.
O nematóide do cisto da soja, Heterodera glycines, apresenta uma diagnose ainda mais complexa, dado que os sintomas da parte aérea nem sempre são evidentes. O parasitismo prejudica a absorção de água e nutrientes pelas raízes e pode provocar a redução do porte e clorose. No entanto, se o solo apresenta boa fertilidade e disponibilidade hídrica, os sintomas na parte aérea podem ser pouco evidentes. Por esse motivo, de 30 a 40 dias após a semeadura, podem ser observadas fêmeas do nematóide na raiz, que transformarão-se em cistos, estruturas permanentes no solo e que contribuem para a disseminação do patógeno.
O nematóide-das-lesões-radiculares, Pratylenchus brachyurus, apresenta sintomas menos específicos na parte aérea das plantas, sendo mais comuns em plantas menores. Nesse sentido, a avaliação das raízes faz-se crucial, pois as plantas parasitadas apresentam escurecimento parcial ou generalizado no sistema radicular. As alterações podem estar relacionadas à movimentação do nematoide pelos tecidos e aos danos provocados durante o processo de alimentação.
O nematoide-reniforme, Rotylenchulus reniformis, pode apresentar sintomas que dificultam a análise visual. As áreas infestadas apresentam expressiva desuniformidade e grandes áreas de plantas subdesenvolvidas, sintomas que também podem ser confundidos com deficiências nutricionais ou compactação do solo.
Diante dessa alta gama de sintomas, a amostragem de solo e das raízes representa uma etapa importante no processo de diagnóstico. A coleta deve ser feita de maneira representativa, considerando a distribuição espacial do problema na lavoura. Em áreas de reboleiras, as amostras devem ser feitas em diferentes pontos dessas regiões. Especificamente para os nematóides-das-galhas, a Embrapa recomenda que a coleta das raízes forme uma amostra composta de aproximadamente 200 g de solo e pelo menos cinco sistemas radiculares diferentes.
O histórico da área também é um importante fator nessa análise. Informações sobre culturas anteriores, ocorrência de sintomas em safras passadas, produtividade, utilização de cultivares, ocorrência de pragas e daninhas e a fertilidade do solo podem influenciar na capacidade de hospedagem e disseminação das espécies nematóides, ou até mesmo reduzi-las.
A depender do tipo de nematóide, é necessário, além da coleta, a realização da análise laboratorial. Para identificar a espécie de nematoides-das-galhas, é necessário essa análise.
Portanto, a diagnose e o monitoramento são considerados cruciais para o manejo de nematoides na cultura da soja. São diversos fatores que compõem a correta análise: conhecimento dos sintomas e danos dos nematóides, a realização da coleta do solo e possível encaminhamento ao laboratório e o conhecimento do histórico da área e manejos anteriores.
4. MANEJO INTEGRADO DE NEMATOIDES NA SOJA
4.1 Visão geral
A melhor forma de se controlar nematóides é a partir da conciliação entre uma boa estrutura e fertilidade de solo e uso de métodos químicos, biológicos, culturais e varietais, não havendo uma forma simples e direta com eficácia reconhecida.
Segundo o professor Juvenil Caires, da UnB, um metro quadrado de solo infestado pode reunir cerca de 30 milhões de indivíduos nematóides, cujos ciclos de vida podem ser concluídos em três a quatro semanas. Produzidos os ovos, ou cistos, estes podem permanecer viáveis no solo por até dez anos (MAIS SOJA, 2025) considerando um solo em pousio ou ausente em plantas hospedeiras.
Nesse sentido, a eliminação desses organismos de uma área é praticamente impossível e o que resta é reduzir sua população para níveis dentro do espectro aceitável, limitando seu potencial reprodutivo e reduzindo gradualmente o reservatório de ovos/cistos no solo.
O manejo de uma área limpa e com controle de plantas infestantes, por exemplo, é essencial para evitar pontes verdes que aumentam a população de nematoides, representando um perigo invisível mesmo quando o produtor pensa estar bem prevenido.
Figura 8: Diferentes plantas daninha.
Fonte: Mais Soja, 2025.
A estruturação de fertilidade do solo e deposição de matéria orgânica também são determinantes para a redução da densidade desses indivíduos. Com relação ao pH do solo, não todos, mas grande parte das principais espécies de nematoides fitoparasitas sofrem influência negativa em faixas de menor acidez e próximas da neutralidade, que porventura é a faixa ideal para as lavouras.
De modo geral, uma boa forma de se evitar o adoecimento expressivo da lavoura é evitar cenários de estresse nas plantas. A disponibilidade hídrica, atrelada a manejos de fertilidade e cobertura de solo com matéria orgânica torna a lavoura menos suscetível a impactos causados pelos nematóides e ainda propicia um ambiente potencialmente supressivo aos fitonematoides.
4.2 Plantas de cobertura
Jan Seinhorst foi um importante nematologista que se dedicou à proposição de modelos matemáticos para estipular a reprodução de nematoides e o grau de relatividade que ela tem com diferentes plantas hospedeiras.
Seinhorst idealizou a fórmula do fator de reprodução de nematoides, FR = FP/PI, respectivamente a população final infestante na área e a população inicial, que quantifica o quanto uma planta hospedeira é capaz ou não de aumentar a população de nematoides presente em uma área. Valores de FR > 1 são indicativos de plantas com potencial hospedeiro e os graus variam conforme essa fração aumenta. Já FR < 1 indicam que a planta não é boa hospedeira para os fitoparasitas, que tem sua população reduzida em contato com o organismo vegetal.
Os fitonematoides são altamente responsivos ao ambiente externo e, no que tange à substituição de culturas suscetíveis por plantas de cobertura com baixo fator de reprodução, é esperada uma redução da densidade populacional já na primeira safra de uso.
4.2.1 Classificação de plantas antagonistas
As plantas não suscetíveis a nematoides, podem ser nomeadas por plantas antagonistas, classificação que engloba algumas subdivisões: plantas armadilhas, hospedeiras desfavoráveis e que exsudam compostos bionematicidas.
Plantas armadilhas são atacadas pelos fitoparasitas mas não permitem que estes concluam seu ciclo reprodutivo, como é o caso das crotalárias e do sorgo forrageiro. Já hospedeiras desfavoráveis atraem nematoides mas não oferecem nutrição necessária, causando sua morte por inanição, como fazem o feijão guando, milheto e a mucuna preta. Abaixo, mostra-se uma relação entre as plantas de cobertura mais utilizadas para o controle de nematoides.
Figura 9: Diferentes espécies de nematoides com associação a diferentes plantas de cobertura.
Fonte: Agroadvance, 2020.
4.2.2 Crotalária
As crotalárias são plantas do gênero Fabaceae extremamente eficientes no controle de nematoides pois representam plantas armadilha e que conseguem exsudar compostos alelopáticos maléficos ao desenvolvimento dos nematoides. Para esse fim, são utilizadas a Crotalária spectabilis, ochroleuca e breviflora. Conforme ilustra a tabela anterior, uma exceção seria apenas a crotalária juncea, espécie muito associada ao manejo para ampliação da FBN no solo, que não traça uma relação positiva com a multiplicação de nematoides no solo.
4.2.3 Brachiárias
As espécies de brachiaria travam uma relação intrincada com diferentes níveis de fatores de reprodução e suscetibilidade aos nematoides fitopatogênicos. O estudo abaixo traz as principais espécies da forrageira utilizadas no Brasil em função de sua suscetibilidade ou não ao dano pelos parasitas.
Figura 10: Comparativo entre as principais espécies de Brachiaria do Brasil e sua relação de suscetibilidade com nematoides.
Fonte: Embrapa, 2020.
Da tabela, pode-se concluir que a maioria das espécies de brachiaria oferecem boa resistência contra nematoides, salvo algumas exceções. Percebe-se que as B. brizantha e ruziziensis, amplamente utilizadas no país como forrageira principal ou como planta de cobertura consorciada, têm o Pratylenchus brachyurus como ponto fraco, representando um fator de reprodução do nematoide maior que 1 (o que as torna plantas hospedeiras multiplicadoras). À exceção disso, as espécies da gramínea são bons recursos para o manejo integrado de nematoides em áreas infestadas de Meloidogyne e Heterodera, parasitas muito importantes para o ciclo da soja.
4.2.4 Milheto
Os nematoides não conseguem se alimentar ao redor da rizosfera do milheto, o que o configura um mau hospedeiro. É praticamente imune às espécies Rotylenchus reniforme e Heterodera glycines, sendo extremamente eficaz numa sucessão com soja por exemplo, mas é suscetível à Pratylenchus, fato ao qual se deve ter atenção.
4.3 Rotação e sucessão de culturas
O professor da ESALQ-USP, Mário Inomoto, realizou o estudo abaixo de modo a quantificar a agressividade de cada espécie de nematoides relativa às grandes culturas no Brasil.
Figura 11: Relação planta-hospedeiro entre as principais culturas agrícolas brasileiras e nematoides fitopatogenicos. Fonte: Inomoto, 2013.
A partir da análise das tabelas, pode-se reconhecer quais sucessões realizadas à campo podem ou não elevar a densidade populacional de fitonematoides, como é o caso do Rotylenchus em sistemas com algodão e Pratylenchus e Meloidogyne em sistemas soja-milho. Observações desse tipo devem ser levadas em conta com base na realidade prática de cada produtor e manejo agrícola.
4.4 Cultivares resistentes ou tolerantes
Atualmente no Brasil as cultivares mais resistentes a nematoides são originadas por melhoramento genético convencional, não havendo ainda transgenia. No mercado nacional, Embrapa, Donmario e TMG são as maiores responsáveis pelo desenvolvimento das cultivares utilizadas nestes casos.
Dentre as mais utilizadas, destacam-se BRS 7380RR e BRS 7481, da Embrapa, ambas com dupla resistência para Meloidogyne e Heterodera, e TMG2381 IPRO e DM78IX80RSF I2X, da TMG e Donmario, respectivamente, resistentes a Heterodera.
Apesar de Basf e Corteva estarem desenvolvendo uma cultivar transgênica recente para esse fim, ainda não existem cultivares disponíveis para Pratylenchus, muito por conta de sua elevada agressividade e polifagia, que condicionam a suscetibilidade de muitas plantas. Mas, para os próximos anos, espera-se o desenvolvimento de uma nova proteína, Cry14Ab-1, capaz de controlar esse tipo de fitoparasita, lançada em parceria pelas duas gigantes agroquímicas.
5. MANEJO QUÍMICO DE NEMATOIDES
O controle químico constitui uma importante ferramenta no manejo e eliminação de nematóides. A utilização desses produtos químicos representa uma estratégia de supressão populacional e redução de danos, visto a dificuldade de erradicação do problema.
Os nematicidas podem atuar nos nematóides por diferentes mecanismos. Dessa forma, deve-se considerar os diferentes tipos de ação, suas formulações e como são aplicados, a fim de aumentar a eficiência da aplicação. Quanto à época de aplicação, a ação desses produtos deve ser feita nos estádios iniciais de desenvolvimento, pois, nesse período, a formação do sistema radicular é 16
fundamental para o estabelecimento e crescimento da cultura.
Sendo assim, existem alguns princípios ativos que possuem eficácia comprovada para o controle dessas espécies. Dentre os ativos registrados no MAPA, destacam-se os ingredientes ativos: Fluopyram, Cadusafós e ciclobutrifluram. É necessário analisar isoladamente, e pensar em sua atuação no nematóide e seu modo de aplicação visando a maior eficiência e redução de custo.
O fluopyram é um ingrediente ativo que atua inibindo a cadeia respiratória, Pertence ao grupo químico das carboxamidas, é classificado como inibidor do complexo II (Succinato Desidrogenase).
Ao analisar produtos comerciais à base de fluopyram, percebe-se que é um produto sistêmico, de concentração de 500 g/L em suspensão concentrada (SC). Na sua bula, tem-se recomendado a dose de 0,3-0,5 L/ha, e sua aplicação deve ser feita no sulco de plantio ou em superfície durante a semeadura ou durante um intervalo de 7 dias antes ou após a semeadura. É efetivo no controle de Nematoide das lesões radiculares, Nematoides das galhas, Nematóide da haste verde, Nematóide-espiralado, Nematoide de cisto da soja e Nematoide-reniforme.
Um estudo apresentado no X congresso nacional da soja, em 2025, avaliou a eficácia do Fluopyram para o controle do nematoide-das-galhas (Meloidogyne Javanica). Foram aplicadas doses de 0,3 e 0,5 L, juntamente com cadusafós e um biológico. A dose mais alta, promoveu uma redução de até 95,2 e 98% das espécies juvenis e ovos da raiz, respectivamente. Dessa forma, evidenciou-se, além da prática, a eficácia desse princípio ativo.
O ciclobutrifluram têm ganhado destaque no tratamento de sementes de soja. Assim como o fluopyram, é uma carboxamida, que atua inibindo a respiração celular. É um produto sistêmico, com concentração de 500 g/L em suspensão concentrada. Na bula, recomenda-se a de 20 a 180 mL p.c./100 kg de sementes, á depender do tipo de nematóide e/ou doença.
O cadusafós, por sua vez, é um inseticida nematicida. É um produto organofosforado, que atua inibindo no sistema nervoso, inibindo a acetilcolinesterase que possui concentração de 200 g/L em suspensão de cápsulas. A aplicação deve ser feita no sulco de plantio, juntamente a semeadura com a dose recomendada de 4,0 L/ha. Os principais nematóides atacados por esse produto são:
Nematóides-das-lesões e nematóides-das-galhas.
Portanto, o manejo químico representa uma das principais alternativas para o controle e eliminação dos nematóides, principalmente por sua alta eficácia. É importante frisar que as aplicações devem ser feitas de maneira tecnificada, a modo de ter-se controle das doses, acertar na tecnologia de aplicação, saber o momento certo de aplicação e ter conhecimento na hora de misturar os produtos.
6. MANEJO BIOLÓGICO DE NEMATÓIDES
Diferentemente dos nematicidas químicos, os nematicidas biológicos têm grupos de acordo com seu mecanismo de ação contra o patógeno.
O primeiro grupo age criando barreiras de biofilme ao redor da superfície radicular, formadas por polímeros que bloqueiam a penetração dos nematoides. Os ativos são bactérias do gênero Bacillus, eficazes no controle de Meloidogyne e Heterodera.
O segundo grupo, formado por Bacillus e Trichoderma principalmente, produzem enzimas proteolíticas e lipolíticas capazes de destruir ovos e cistos presentes no solo, atingindo também, consequentemente, Meloidogyne e Heterodera.
O terceiro grupo age na transmissão de sinais para os nematoides, através dos quais geralmente estes se guiam para alcançar as rizosferas, por exemplo. Bactérias do gênero Bacillus emitem sinais conflitantes, que confundem e redirecionam os parasitas para longe da região radicular. Essas substâncias são eficazes para Pratylenchus, nematoides migratórios que perdem o senso de locomoção e acabam por morrer de exaustão e inanição.
O quarto grupo consiste principalmente dos fungos Purpureocillium lilacinum e Pochonia chlamydosporia, organismos parasitas que buscam se alimentar de componentes dos ovos e de nematoides em fase juvenil. São muito eficientes para controle de Meloidogyne.
O último grupo bionematicida age induzindo a resistência das plantas aos parasitas. Outra vez, bactérias Bacillus agem preventivamente induzindo a planta a produzir compostos fenólicos, quitinases e outras enzimas responsáveis pelo fortalecimento estrutural do sistema radicular, reduzindo o potencial de dano oferecido pelos nematoides.
A Agrofit (AGROFIT, 2026) reúne atualmente cerca de 116 produtos biológicos com ação nematicida registrados, protagonizados essencialmente por Bacillus velezensis, subtilis e amyloliquefaciens, seguidos por fungos Purpureocillium lilacinum e Trichoderma harzanium. Em detrimento ao uso de químicos, os biológicos ofertam maior custo benefício, com o diferencial de apresentarem residual nas áreas, excluindo a necessidade de reaplicações constantes (isso, em solos com condições apropriadas de temperatura e fertilidade, conforme demandam as especificidades dos ativos em uso).
Grande destaque para os biológicos é a contrapartida benéfica que desenvolvem para as plantas, geralmente criando espectros de proteção nas raízes contra ataques externos e melhorando suas funcionalidades absortivas, por exemplo, resultados que vão além do objetivo inicial contra os nematoides. (Agroadvance, 2024).
De modo geral, esses produtos são utilizados via tratamento de sementes ou via sulco de plantio, no momento da implementação da soja e, isoladamente, não garantem bons resultados. Sua utilização depende do respeito às condições adequadas de aplicação e principalmente da introdução em solos com fertilidade e matéria orgânica ajustados, com bom aporte hídrico, temperatura e substratos necessários para sua subsistência e estabelecimento.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Heterodera glycines, Pratylenchus brachyurus, Meloidogyne incógnita e javanica e Rothylenchus reniformis representam, atualmente, as piores ameaças em nematoides no cenário da produção de soja no Brasil e no mundo, mesmo que pelo senso comum ainda possam parecer de certa forma incipientes. A realidade, pelo contrário, é outra: seus elevados índices de densidade populacional e o alcance de áreas afetadas por todo o país é alarmante, tal como a realidade das perdas de produtividade da soja.
Em função disso, futuro comprometido com altas metas de produtividade deve perpassar necessariamente pelo manejo integrado de nematoides, articulando rotação eficiente de culturas com plantas não hospedeiras dos parasitas ao uso de defensivos químicos e biológicos de maneira bem direcionada, para progressivamente tentar reduzir o banco populacional de nematoides maléficos nos solos agricultáveis do país.
Autores: Juliana Amgarten (Kiboa) e Rafael Foratori (Pitstop).
9. REFERÊNCIAS
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https://www.adapar.pr.gov.br/Pagina/Agrotoxicos-Fungicidas. Acesso em: 27 set. 2026.
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