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PLASTICIDADE DA SOJA: QUAL O SEU REAL IMPACTO NA PRODUTIVIDADE


1 INTRODUÇÃO
“A soja (Glycine max (L.) Merrill), é uma cultura de grande interesse, por seu elevado valor no mercado, composição química e alto valor nutritivo, constitui grande área dos cultivos mundiais e principalmente brasileiros, sendo o maior produtor mundial desse grão. Com isso, é uma cultura altamente estudada e melhorada geneticamente para se extrair o maior potencial produtivo possível. Enquadra-se nesse melhoramento uma melhor arquitetura da planta, buscando plantas com menor taxa de acamamento e maior engalhamento, isso engloba a plasticidade da soja.
O conceito de plasticidade é a capacidade da planta de modificar sua morfologia e seus componentes de rendimento para se adaptar ao espaço disponível e às condições do ambiente.
2 POPULAÇÃO DE PLANTAS
A população de plantas por hectare é um fator determinante para o arranjo das plantas. A faixa de população recomendada para o Brasil desde os anos 1980 era por volta de 400.000 plantas por hectare, no entanto esse valor vem diminuindo nos últimos anos, para valores entre 250.000 a 300.000 plantas. Isso ocorreu devido ao lançamento de cultivares que apresentam um porte mais robusto e solos com uma capacidade produtiva maior, assim sendo possível realizar a redução do número total de plantas por hectare, a depender da cultivar escolhida (EMBRAPA, 2013).
A soja é uma cultura com ampla tolerância a variação na população de plantas, o que afeta mais a morfologia do que o rendimento de grãos. Já o milho, é uma cultura de baixa plasticidade, visto que a emissão de perfilhos atrapalha o rendimento da cultura, por não possuir uma capacidade de sustentar dois ou mais perfilhos e ainda assim manter a produtividade das espigas que virão juntamente a isso. Já em outras gramíneas como trigo, centeio, cana-de-açúcar, que são plantas que perfilham muito, isso pode diminuir os problemas com falhas, porém essa compensação depende de condições do ambiente e manejo adequado (BUENO, 2021).
Dentre as características morfológicas da soja que se encaixam no potencial de plasticidade podemos citar o número de ramificações por planta, comprimento dos ramos e o número de nós férteis, estes podem aumentar a superfície fotossintetizante e o local para surgimento de partes reprodutivas. Por outro lado, essas partes vegetativas podem desviar fotoassimilados que seriam utilizados pela planta para realizar a fixação, construção de estruturas reprodutivas na haste principal e o enchimento dos grãos. Mas quando bem manejadas as características da soja pode-se explorar esse potencial de compensação da cultura e reduzir perdas, potencializando assim produtividade e lucro (RIBEIRO et al., 2017).
Em áreas com populações altas de soja, tem-se uma maior competição entre as plantas, por luz, água e nutrientes. Pode haver um estiolamento das plantas, que é um mecanismo no qual ela alonga seu caule, deixando-o mais fino e praticamente sem folhas no baixeiro, para encontrar luz solar e voltar a emitir folhas normalmente, isso pode ocorrer caso tenha muita palhada no solo e em casos de população elevadas, onde as plantas se auto sombreiam, gerando o que é chamado no campo
de soja popularmente chamada de “caneluda”. Na competição por água e nutrientes as plantas irão ficar menos desenvolvidas, sendo mais difícil a plantação passar por momentos de estresse hídrico principalmente e outros estresses, assim consequentemente gerando perdas de produção (BALBINOT et al 2020; GHIRALDINI, 2014).
Pode haver também microclima favorável para doenças e menor aproveitamento da plasticidade potencial da cultura, podendo se ter custo desnecessário com sementes, que não irão resultar em maiores produtividades (ARGENTA et al., 2001; BALBINOT et al 2020).
Figura 1 - Planta de soja estiolada.
Fonte: GHIRALDINI (2014).
Caso haja uma redução elevada de plantas por metro, tem-se maior potencial para o engalhamento da soja, e a tendência é que isso compense e mantenha a produtividade das plantas, mas se tem maior risco com perdas no momento da colheita, por se ter plantas com menor porte, além de afetar a velocidade de fechamento das entrelinhas, consequentemente maior pressão de plantas daninhas, podendo causar reduções na produtividade (BALBINOT et al 2020; VAZ BISNETA, 2015).
O manejo mais comum que tem sido realizado é a diminuição do espaço entre linhas e com isso diminuição no estande de plantas por metro, para manter a população o mais próximo possível do ideal, visando um fechamento do dossel mais cedo e consequentemente menor pressão de plantas daninhas fotoblásticas positivas, além de evitar tombamento por se ter plantas muito altas e com pouca estrutura (FISS, 2015).
Tabela 1 - Densidade de plantas por hectare, de acordo com o espaçamento entre as fileiras e o número de plantas por metro linear.
Fonte: Balbinot Junior et al, 2020
A população de plantas deve ser respeitada de acordo com o catálogo e a recomendação para cada cultivar, visto que populações abaixo ou acima do recomendado, má distribuição de plantas e falhas de plantio, provocam a redução do potencial produtivo da lavoura, mesmo que a soja apresente alto valor compensatório (FISS, 2015).
Figura 2 - Ilustração da densidade de plantas/ha.
Fonte: BUENO (2025).
3 ÉPOCA DE SEMEADURA
A época de semeadura tem grande influência na plasticidade da soja, já que ela pode influenciar em diversas características da planta, como na altura, no diâmetro da haste, no número de legumes da haste principal e na massa de mil sementes, sendo essas características menos expressadas em plantios mais tardios (MEOTTI et al., 2012). Isso acontece porque a soja fica menos tempo exposta a fotoperíodo longo e já que é uma planta de dia curto, irá florescer mais rapidamente, desta forma fica por menos tempo no período vegetativo. Além disso, a temperatura pode influenciar nesse processo, com temperaturas mais altas aceleram o desenvolvimento da planta, e quando isso é somado com o fotoperíodo, pode acelerar ainda mais o florescimento (PETER et al., 2021).
Essa expressão reduzida de características tende a reduzir a produtividade da planta (quando se compara a mesma cultivar), porque seu florescimento será antecipado, devido à presença de dias mais curtos, o que diminuirá seu período vegetativo (MEOTTI et al., 2012) e consequentemente sua área foliar, o que fará com que a soja tenha tendência a absorver menos nutrientes do solo e aproveitar menos energia luminosa. Isso acarretará na formação de menos fotoassimilados e conversão em energia disponível para a planta, o que reflete diretamente no seu desenvolvimento, formando plantas de menor porte (CRUZ et al., 2010).
Tabela 2 – Comparação de médias entre épocas de semeadura para a soja em Turuçu (RS), safra 2018/19
Fonte: Peter et al. (2021, p.7).
Pode-se observar no experimento de Peter (2021), onde foram comparadas duas épocas de plantio utilizando a mesma cultivar que houve uma mudança na altura das plantas, diâmetro da haste, número total de legumes e sementes, massa de sementes na haste principal, rendimento e a massa de mil sementes. O resultado da semeadura em 15 de novembro foi melhor na grande parte das características observadas, diferindo estatisticamente, em comparação com a semeadura em 15 de dezembro.
4 FITORMÔNIOS
Os fitormônios têm grande importância na plasticidade da soja, já que o equilíbrio da auxina, citocinina e giberelina implicam na soja sua plasticidade, definindo características importantes como sua altura e quantidade de nós que serão formados.
A auxina, na maioria dos casos, é produzida nas folhas novas em expansão que estão localizadas no ápice do caule. Essa auxina produzida irá descer pelo caule via transporte polar, que ao chegar na região abaixo do ápice, irá inibir o crescimento das gemas axilares. Sem o crescimento dessas gemas a ramificação da planta será prejudicada, esse fenômeno é conhecido como dominância apical. Cada órgão é estimulado em uma faixa de concentração de auxina, sendo a raiz mais sensível que as gemas laterais que são mais sensíveis que o caule. Caso essa concentração aumente, nas raízes o crescimento será inibido porque a auxina em excesso estimula a produção de etileno, o que inibe o alongamento das células, e nas gemas laterais a auxina reduz a síntese de citocinina que é importantíssima para a brotação das gemas. Pensando no caule seu crescimento é estimulado nas concentrações em que a auxina inibe o crescimento das raízes e das gemas, o que explica a dominância apical na planta (TAIZ et al., 2017).
Pensando na giberelina, o seu efeito mais marcante na plasticidade da soja é o alongamento dos entrenós, pois quando ligada ao receptor GID1 promove a degradação das proteínas DELLA. Sem essas proteínas, os genes ligados ao crescimento deixam de ser reprimidos, e as células dos entrenós passam a se dividir e se alongar, ou seja, aumentam a altura da planta (TAIZ et al., 2017).
Já a citocinina, pensando na plasticidade, faz com que ocorra maior divisão celular e a quebra da dominância apical. A quebra dessa dominância nas gemas axilares estimulam a brotação de novos ramos na planta. A citocinina é produzida principalmente nas raízes e transportada via xilema até a parte aérea da planta, onde atua de forma oposta a auxina, estimulando a brotação de novos ramos, por isso o equilíbrio entre esses dois fitormônios é importante para definir a ramificação da planta (TAIZ et al., 2017).
A luz, percebida pela planta por meio do fitocromo, altera o equilíbrio hormonal da soja, o que interfere em algumas características da plasticidade da soja. Quando há um sombreamento sobre a cultura, os teores de auxina e giberelina aumentam e reduzem os teores de citocinina, isso acontece porque as folhas absorvem a luz vermelha e deixam passar o vermelho distante sob o dossel, quando a razão (luz vermelha/vermelho distante) cai e o fitocromo passa para a sua forma inativa, isso faz com que fatores de transcrição sejam liberados e ativam a síntese de auxina, juntamente com as repostas a giberelina. A mudança nos teores desses fitormônios faz com que o tamanho do caule aumenta, porque a auxina acidifica a parede celular, o que ativa as proteínas expansivas que deixam a parede celular mais suscetível à pressão de turgor (TAIZ et al., 2017). A giberelina libera os genes de crescimento, que juntas promovem o alongamento celular no caule. Além disso, pelo aumento da concentração de auxina há redução de citocinina o que faz com que a área foliar diminua (WU; GONG; YANG, 2017).
De acordo com o experimento de Wu, Gong e Yang (2017) abaixo, pode-se observar algumas respostas da soja ao sombreamento.
Figura 3 - Folhas de soja cultivadas sob sombreamento e a pleno sol, aos 30 dias após a semeadura
Legenda: Shade = sombreamento (25% da luz solar); Full sunlight (CK) = pleno sol, tratamento controle; Young leaves = folhas jovens (em expansão); Middle leaves = folhas intermediárias (em maturação); Old leaves = folhas velhas (completamente expandidas). Barra = 1 cm. Fonte: adaptado de Wu, Gong e Yang (2017).
Figura 4 - Teores de auxina (a), citocinina (b) e giberelina (c) em folhas jovens, intermediárias e velhas de soja cultivada sob sombreamento e a pleno sol
Legenda: CK = pleno sol (controle); Shade = sombreamento; Auxin content = teor de auxina (pg/g); Cytokinin content = teor de citocinina (ng/g); Gibberellin content = teor de giberelina (pg/g); Young, Middle e Old = folhas jovens, intermediárias e velhas. Valores são médias ± desvio-padrão (n = 6). ** = diferença significativa entre os tratamentos a 1% de probabilidade.
Fonte: adaptado de Wu, Gong e Yang (2017).
Como pode-se observar nos gráficos, sob sombra a auxina e a giberelina aumentam e a citocinina diminui, em todas as diferentes idades de folhas, além de diminuir seu tamanho.
Em suma, essa dinâmica dos fitormônios sob sombreamento da soja, juntamente com o fato das plantas conseguirem detectar o vermelho distante refletido pelas plantas vizinhas e desta forma ter uma resposta antes do efeito do sombreamento (BALLARÉ; SCOPEL; SÁNCHEZ, 1990), faz com que a planta aumente sua altura em busca de mais luz e quando ela passa a priorizar seu crescimento vertical o número de ramos diminui, devido ao acúmulo de auxina que irá reforçar a dominância apical (TAIZ et al., 2017), além de formar folhas menores, o que pode impactar diretamente a produtividade da cultura.
5 REGULADORES DE CRESCIMENTO
O uso de reguladores de crescimento tem sido algo muito estudado em soja e outras culturas, em soja geralmente visando um menor porte da planta e uma estrutura melhor, garantindo uma menor taxa de acamamento e evitando o efeito guarda chuva em aplicações, que consiste nas folhas do terço superior da planta dificultarem a chegada das aplicações no terço inferior da planta, ou seja, afetando a cobertura uniforme do baixeiro e melhor eficiência da aplicação, isso ocorre em geral nos estádios mais avançados de desenvolvimento da cultura. Isso pode favorecer pragas, doenças e até plantas daninhas, consequentemente perdas de produtividade (MARANGONI, 2026).
Características como redução nas perdas por acamamento, alteração no ciclo, floração, modificações morfológicas e fisiológicas, são esperadas quando se usam reguladores de crescimento vegetal em soja, além de um maior desempenho reprodutivo, melhorias na qualidade fisiológica de vagens e grãos, assim resultando em incremento produtivo (PEREIRA, 2025).
Pensando nisso, há a possibilidade de utilização de diversos ingredientes ativos, com diferentes modos e mecanismo de ação, sendo grande parte relacionados com fitormônios. Mas também relacionados à herbicidas, extratos de alga e até caso com fungicida. Como os abordados seguir.
5.1 - Ácido 2,3,5 triiodobenzóico (TIBA)
Com isso, produtos à base de Ácido 2,3,5 Triiodobenzóico (TIBA), atuam inibindo o transporte basipetal da auxina, ou seja, dos meristemas, onde há maior produção de auxina, para a base da planta. Realizam isso por apresentarem os mesmos sítios de ligação nas proteínas transportadoras PIN, que são as principais saídas da auxina no transporte basípeto, conhecido como transportadores de efluxo e pode desregular as proteínas ABCB que gera também redução e instabilidade no efluxo. o transporte de auxinas também envolve proteínas da família AUX1/LAX que atuam na entrada da auxina do apoplasto para o citoplasma, estas são pouco afetadas pelo TIBA, todas estão localizadas na membrana plasmática, mas o efluxo é quem vai ditar a dominância apical da planta, por isso esse produto é interessante (CATO et al, 2006; GÓMEZ 2022).
O TIBA não induz o florescimento da soja, mas melhora a eficiência do florescimento induzido pelo fotoperíodo da soja, por reduzir a dominância apical, com isso, ativando as gemas laterais que com a indução ao florescimento formam gemas florais ao em vez de ramos vegetativos. Outro ponto é a alteração na relação fonte-dreno da planta, tendo-se menos energia gasta para o crescimento vertical e mais fotoassimilados direcionados para as estruturas reprodutivas (CASTRO et al, 2016; PEREIRA, 2025).
No entanto, altas concentrações desse biorregulador podem causar redução na produção de grãos, com menos grãos por vagem e menor teor de proteínas. Acarreta também no menor acúmulo de nitrogênio nas folhas, já nas vagens uma maior fixação desse nutriente e de aminoácidos derivados do mesmo. Uma hipótese que explica isso é o maior número de vagens (drenos) que a planta produz e consequentemente precisa remobilizar assimilados para todos, não garantindo o enchimento completo dos grãos e menor número de grãos por vagem (CASTRO et al, 2016; PEREIRA, 2025).
Estudos apresentaram maior eficiência do produto com aplicações no estádio vegetativo, sendo o mais utilizado entre V4 e V6, e melhores respostas em cultivares de ciclo muito precoce e precoce, mas também foram obtidos resultados positivos em cultivares com ciclo médio. As bulas de produtos com esse ingrediente ativo trazem a aplicação entre V4 e R3 na soja, sendo de 1 a 2 aplicações no ciclo com intervalo de pelo menos 7 dias entre as aplicações. Um produto comercial que podemos destacar é o STAY UP da Nitro.
5.2 - Benziladenina
A benziladenina é um regulador de crescimento vegetal sintético pertencente ao grupo das citocininas, responsável por estimular a formação de hastes laterais produtivas e maior número de nós na planta, também estimula a divisão celular justamente por aumentar a quantidade de citocinina na planta, tende a induzir o engalhamento com a quebra da dominância apical. Com mais ramos produtivos, consequentemente mais nós e mais vagens, isso pode vir a interferir pois são mais drenos competindo pelos mesmos fotoassimilados, isso pode aumentar a produção da soja, mas consequentemente podem causar a redução do PMG dos grãos, sendo variável para cada cultivar essas reduções (ZAKSESKi, 2026).
A Sumitomo Chemical traz o produto MAXCEL a base de Benziladenina 20 g/L trazendo de 1 a 2 aplicações aplicando de V2 a V4, caso sejam feitas duas aplicações o intervalo indicado é de 7 dias entre as aplicações (SUMITOMO CHEMICAL 2024).
A Sumitomo traz esse produto junto ao Progibb, que é um produto à base de Ácido Giberélico 400 g/L. A giberelina atua trazendo um pegamento e uma uniformidade das flores de maneira mais eficiente, pois substitui sinais químicos e interrompem a dormência das gemas florais, mandando mais fotoassimilados para a flor ou fruto jovem. É indicado segundo a bula do produto 2 aplicações, sendo a primeira em R1 e outra após 7 dias, com doses de 3,75 a 6,25 g/ha (SUMITOMO CHEMICAL, 2024).
5.3 - Stimulate
O Stimulate é um produto a base de Cinetina 0,09 g/L que é uma citocinina, ácido giberélico 0,005 g/L e ácido 4-indol-3-butírico 0,005 g/L, mais conhecido como AIB, é um fitormônio da família das auxinas.
Segundo a bula do próprio produto, é esperado que com a aplicação de cinetina, tenha crescimento a partir da divisão celular e do alongamento celular, além de interferir na dominância apical e promover o crescimento das gemas laterais. O ácido giberélico determina o tamanho dos frutos e promove a germinação pela quebra da dormência. O ácido 4-indol-3-butírico participa do alongamento celular, retarda a queda de flores, estimulando o pegamento destas mesmo sem fecundação e induz primórdios radiculares (Stoller 2025).
A cinetina é uma citocinina que não é produzida naturalmente pelas plantas, mas atua como um. Os outros dois ingredientes ativos do Stimulate são produzidos naturalmente pela planta, o que muda é a concentração de cada um deles dentro dela e com isso a interação entre os fitormônios e a regulação entre eles, alterando a dinâmica da soja. Portanto há estímulo para o engalhamento e o potencial de plasticidade natural da soja. Sua aplicação pode ser via tratamento de sementes, sulco de plantio e na pulverização foliar entre V5 e V6 (Stoller 2025).
5.4 - Etefom
O Etefom (ácido 2-cloroetilfosfônico) atua como regulador de crescimento, sendo um precursor de etileno, assim bloqueia o transporte polar de auxina, isso altera o balanço hormonal e favorece a citocinina advinda das raízes, gerando uma tríplice resposta na planta a diminuição do alongamento vertical, espessamento radicular e a maior indução ao crescimento de ramos laterais, favorecendo para que o dreno principal seja as partes reprodutivas da soja, aumentando o carregamento de aminoácidos das folhas para os grãos. Um cuidado que deve ser tomado é com a época de aplicação visto que pode causar o abortamento floral se mal posicionado (SUMITOMO CHEMICAL, 2024; TUMELERO, 2023).
O produto Ethrel 240 g/L e o Impulse 480 g/L realizam essa ação de regulação de crescimento, sendo feita uma aplicação entre 25 e 30 dias após a emergência, geralmente entre V5 e V7 (BAYER, 2025; SUMITOMO CHEMICAL, 2024).
5.5 - Outros produtos
O ácido indolacético (AIA) presente no produto Simetria da Biotrop 0,03 g/L é uma auxina, que é produzida naturalmente pela planta, atua como um regulador de crescimento, sendo o primeiro do mercado com essa tecnologia D.O.P. que induz os microrganismos do solo a produzir fitormônios que serão utilizados pela planta, equilibrando as fases de crescimento vegetativo e reprodutivo. Segundo a empresa, traz também uma tecnologia que impede que os hormônios presentes na folha da planta sejam fotodegradados, apresenta alta mobilidade dentro da planta, auxilia na mitigação de estresses hídricos e fitotoxidade causados por herbicidas. Outro ponto é que o produto promete aumentar a formação de raízes laterais e pelos radiculares (BIOTROP, 2023).
Segundo a bula do produto, a aplicação deve ser feita no estádio V4 da soja em aplicação foliar única, com dose de 100 a 400 ml/ha
Produtos a base de extratos de algas marinhas geralmente de Ascophyllum nodosum (alga parda), atuam estimulando a produção de hormônios vegetais na planta, tais como citocininas, que auxiliam na tolerância a estresses da planta e a indução de ramos laterais. Pode também agir aumentando a atividade antioxidante e estimulando o crescimento e a absorção de nutrientes da planta (TUMELERO, 2023; VALENCE, 2025). Há diversos produtos comerciais, alguns exemplos são o Stopping Go da Valence, O Roadster da Koppert, Megafol da syngenta, Bionatus da Biotrop, entre diversos outros.
Em experimento realizado pela UFV em 2021, foi testado o Paclobutrazol (PAC) um fungicida do grupo químico dos triazóis, para reduzir o acamamento na soja, o PAC atua na inibição da biossíntese de giberelinas, age na terceira etapa da rota, inibindo a enzima ent-caureno oxidase (KO) e impede a formação de giberelinas bioativas, como apresentado na figura abaixo. No experimento citado comprovou-se um menor porte da planta e redução na taxa de acamamento, com redução do comprimento do caule, maior acúmulo de celulose na parede celular, com a aplicação do mesmo. Os resultados apresentaram menor produção de vagens e grãos, a aplicação foi realizada no estádio V3 da soja (SILVA & RIBEIRO, 2021).
Figura 5 - Rota da formação do ácido giberélico, com o local de ação do Paclobutrazol.
Fonte: JABIR (2017).
O Trinexapaque-etílico também atua na inibição da biossíntese de giberelinas, foi testado em estudo da UNESP e apresentou o mesmo efeito do PAC em soja, mas sem diminuição na produção da cultura. Não há nenhum produto comercial à base de Paclobutrazol e Trinexapaque-etílico com registro para a cultura da soja. A principal utilização de Paclobutrazol é em manga, visando um menor crescimento da planta e maior qualidade do fruto e o Trinexapaque-etílico é na cultura do trigo, pensando principalmente em evitar o tombamento de plantas. (SOARES, 2025).
Outra opção pode ser o uso de subdoses de herbicidas como o 2,4-D e o Lactofen, mas seu uso é pouco indicado visto que a soja é uma cultura suscetível a ambos, caso não apresente tecnologia, como o caso da soja com tecnologia ENLIST para o caso de tolerância ao 2,4-D. O risco de ocorrência de fitotoxidez na cultura nessas aplicações é considerado alto e com chances de diminuição no potencial produtivo da cultura, principalmente caso venha a passar por estresses no momento da aplicação ou logo após. Outro ponto é que os resultados relacionados ao aumento de ramos laterais na cultura são inconsistentes. Os herbicidas podem causar plantas muito menores com menor número de nós totais, resultando em um tratamento drástico, pois a planta não reage como em um regulador de crescimento que age um uma rota específica ou altera a dinâmica de fitormônios, a planta reage como se fosse induzida a morte dela pelo herbicida, assim perdendo seu potencial produtivo. Com isso sua aplicação não é a mais indicada pensando no manejo de porte da soja (GONÇALO, 2026; SILVA et al, 2018).
Tabela 3 - Produtos com ação em regular o crescimento da soja.
Fonte: Silva et al (2018).
Vale ressaltar que as respostas dos reguladores de crescimento podem variar de acordo com diversos parâmetros, como cultivar, época de plantio, época da aplicação, ambiente, clima e fertilidade da área, entre outros.
6 CULTIVARES
As cultivares de soja são outro fator que podem influenciar na plasticidade da soja, pois podem ter diferentes hábitos de crescimento, como determinado e indeterminado. Nas de crescimento determinado, após a planta florescer, nenhum novo nó cresce na haste principal, crescendo apenas de 10% a 13% de sua altura, após florescimento (SEDIYAMA et al., 1996). Já nas cultivares de crescimento indeterminado, após o primeiro indício de florescimento a planta continua emitindo novos nós e folhas na haste principal (THOMAS, 2018) esse crescimento é de aproximadamente 50%, após o primeiro sinal de florescimento (Sediyama et al., 1996). Mas as cultivares de crescimento indeterminado, que são as mais cultivadas atualmente (BALBINOT JUNIOR et al., 2014), se adaptam melhor às variações do ambiente, como estresse por falta de água. Caso uma cultivar de crescimento determinado sofra um estresse em seu período reprodutivo, isso irá causar mais impactos na produtividade em comparação com as de crescimento indeterminado, que caso sofram com algum estresse em alguma fase do processo reprodutivo, tem a chance de compensar parte da produção perdida (THOMAS, 2018).
O que irá definir qual cultivar será escolhida dependerá da sua plasticidade,do espaçamento e da população adotada. A melhor cultivar para espaçamentos maiores pensando em uma economia de semente seriam aquelas que conseguem combinar uma arquitetura aberta (maior passagem de luz entre as folhas), grande capacidade de ramificação e um ciclo mais longo. Quando se pensa em uma população menor de plantas/ha, os ramos são o principal mecanismo de compensação da soja. Já pensando em espaçamentos menores entre linhas, o uso de cultivares com ciclo curto, com uma arquitetura mais compacta seria ideal (BALBINOT JUNIOR et al., 2014).
Esse comportamento foi observado em experimento realizado por Ferreira (2019), em Londrina (PR), que comparou duas cultivares indeterminadas semeadas com 20 a 100% da população recomendada. A BRS 1010 IPRO, com potencial de ramificação alto e GMR de 6.1, manteve a produtividade máxima com apenas 36 a 45% da população recomendada, o que representa uma economia de 55 a 64% de sementes. Já a NS 5959 IPRO, de arquitetura compacta, desenvolvimento reduzido e GMR de 5.9 precisou de 52 a 71% da população recomendada (FERREIRA, 2019).
Figura 6 - Produtividade de grãos de soja em função da densidade de semeadura (% da recomendada): NS 5959IPRO nas safras 2016/17 (A) e 2017/18 (B) e BRS 1010IPRO nas safras 2016/17 (C) e 2017/18 (D), em Londrina (PR)
Fonte: Adaptado de Ferreira (2019).
Com base nesse experimento, os autores concluíram que a redução da população de plantas só é vantajosa quando o menor número de plantas não compromete a área foliar e a interceptação de luz, principalmente na fase reprodutiva. A BRS 1010IPRO conseguiu manter esses parâmetros mesmo com poucas plantas, graças à sua maior capacidade de ramificação, o que lhe conferiu maior potencial de economia de sementes. Já cultivares de arquitetura compacta, como a NS 5959 IPRO, têm essa possibilidade limitada, sobretudo em ambientes menos favoráveis, ou seja, a ramificação é o principal mecanismo de compensação quando se usa populações reduzidas e sua eficiência depende das característica da cultivar (FERREIRA et al., 2024).
Além disso, quando o espaçamento é maior o fechamento de dossel será mais lento, ou seja, a luz continuará chegando no solo por mais tempo, desta forma não impedindo a emergência de plantas daninhas de fotoblastia positiva (semente precisa de luz para germinar), o que pode exigir uma maior atenção do produtor para o controle das daninhas. Pensando em um espaçamento menor, o dossel fechará mais rapidamente, o que favorece as plantas daninhas com fotoblastia negativa (a luz inibe sua germinação) ou fotoblastia neutra (a luz é indiferente na germinação), mas como o dossel fecha mais rápido, ele reduz a quantidade de calda que irá atingir as planta daninhas, ocorrendo o efeito guarda-chuva.
7 CONCLUSÃO
A plasticidade da soja tem grande importância agronômica. Ela permite que a planta altere sua morfologia, principalmente pela emissão de ramos laterais, para compensar variações na população de plantas. Assim, é possível reduzir a quantidade de plantas por hectare sem redução na produtividade, desde que a interceptação de luz e área foliar sejam mantidas principalmente na fase reprodutiva. Essa compensação pode ter limites, de acordo com características como a semeadura tardia, as populações muito altas ou muito baixas, desequilíbrio dos fitormônios, o clima e o solo da área, essas variáveis têm potencial de reduzirem a capacidade da planta de compensar perdas.
Os reguladores de crescimento e a escolha da cultivar ajudam a explorar esse potencial da soja, mas as respostas variam. Portanto, a plasticidade permite que a soja compense parte das adversidades, mas não substitui o manejo. Para aproveitar esse potencial, é fundamental o aprofundamento técnico, com estudo da cultivar, a época de semeadura, a população de plantas, espaçamento, plantio uniforme e manejo correto de acordo com o que se busca.
Autores: Gilvan Antonio Neto (K-tiça) e Gustavo Bordignon Scopelli (Remendadu).
9. REFERÊNCIAS
ARGENTA, G.; SILVA, P. R. F. da; SANGOI, L. Arranjo de plantas em milho: análise do estado-da-arte. Ciência Rural, Santa Maria, v. 31, n. 6, p. 1075-1084, 2001. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/331/33131627.pdf. Acesso em: 23 out. 2026.
BALBINOT JUNIOR, A. A.; PROCÓPIO, S. de O.; DEBIASI, H.; FRANCHINI, J. C. Redução do espaçamento entre linhas na cultura da soja. Londrina: Embrapa Soja, 2014. 8 p. (Circular Técnica, 106). Disponível em:
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/998976/1/CT106.pdf. Acesso em: 21 out. 2026.
BALLARÉ, C. L.; SCOPEL, A. L.; SÁNCHEZ, R. A. Far-red radiation reflected from adjacent leaves: an early signal of competition in plant canopies. Science, Washington, v. 247, n. 4940, p. 329-332, 1990. DOI: 10.1126/science.247.4940.329.
BAYER. Ethrel®: bula. [S. l.]: Bayer, 2025. Disponível em:
https://painel.farmby.com.br/storage/bulas/ethrel.pdf. Acesso em: 23 out. 2026.
BIOTROP. Simetria®: bula. [S. l.]: Biotrop, 2026. Disponível em: https://www.adapar.pr.gov.br/sites/adapar/arquivos_restritos/files/documento/2026-07 /simetria.pdf. Acesso em: 23 out. 2026.
BUENO, D. Arquitetura vegetal: engalhamento e a produtividade em soja. Agrotécnico, [S. l.], 16 dez. 2021. Disponível em:
https://agrotecnico.com.br/engalhameno-em-soja/. Acesso em: 23 out. 2026.
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